quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Contanto


Há tanto em mim
Que me afogo
Fogo
Há tantos em mim
Que não me entendo
Tendo
Há um entanto em mim
Que não canto
Recanto
Há um portanto em mim
Que demora
Mora
Há um enquanto em mim
Que me leva
Eleva

Esquivo


Escrevo de mim
O que em mim crava
Sem crivo
Sem crase
Não só crises
Não só frases
Catarses
Escravo do que sinto
Escavo o que penso
Compenso o meu escasso
Crasso erro
As vezes, fracasso
No sonho concreto
Do viver crível
Do incrível abstrato
Que faço parte
Quero ficar
Mas sempre parto

A procura


Venho procurando em outros mundos, o mundo que em mim habita.
Buscado pessoas que falem meu idioma, sendo que muitas vezes nem eu mesmo o entendo.
Feito uma trilha fora de mim, que só existe em meu interior.
Tenho tentado definir limites a sentimentos, que pela própria definição são ilimitados.
A questão é a própria resposta...
Não preciso ir além das entrelinhas para entender além do que preciso saber. Bastam poucas linhas.
Não é algo, não é alguém,..Sou eu, o tempo todo! Porque todo percurso inicia e termina em si mesmo!
Eu sou a causa primária de tudo que crio e as consequências são reflexos do que sou.
Onde quero chegar? O que quero encontrar? Não importa. A beleza não está no achar ou descobrir, mas no processo que nos conduz.

O tempo e o espaço


De toda a transformação que ocorre em nossas vidas, a maior acontece na relação e percepção que temos sobre o tempo e espaço.
Na juventude, nossas energias afloradas são canalizadas para o que fazemos, a necessidade de conhecer a maior quantidade de coisas e percursos possíveis em um curto espaço de tempo, sem nos importar como chegaremos lá. Tudo na vida parece mais definitivo e nosso poder de escolha é limitada pela ânsia de viver. Queremos guardar e dominar o mundo.
Com o advento da maturidade, as energias, inevitavelmente, diminuem. E o que somos passa a importar mais do que o que fazemos. Ja não importa mais a quantidade de lugares visitados, mas queremos nos aprofundar em cada um deles e, especialmente, no percurso que nos leva até eles. Tudo na vida é mais flexível e tantas vivências e experiências aumentam a nossa capacidade e segurança de escolher. Queremos viver e pertencer ao mundo. E na ironia da vida, muitos jovens almejam essa maturidade da idade, enquanto, mais velhos gostaríamos da energia da juventude! E assim, seguimos nesse difícil equilíbrio, formando pontes, ligando os extremos e aprendendo com eles. Que o espaço seja exatamente onde estamos e o tempo, o presente momento que é sempre um presente.

O gozo


Não quero gozar de você
Quero gozar com você!
Porque gozo é rima, é riso e explosão
Todo resto é engodo e enganação!
Gozar é diversão, mas não é pilhéria
É perder o ar e descobrir uma nova versão
Gozo não é pecado, pecado é não gozar
Não é profanação, nem luxúria
É paraíso e redenção
Quem teme a expressão gozar
Ou nela vê um absurdo
Quem chega a se chocar
E acha que é vocabulário chulo
Não entende o que é gozar
Que vai além do sentido e da palavra
De quem é capaz de se arrepiar
Apenas com um olhar sagrado!

A transformação



Sentia as presas vampirescas e afiadas em um estalo do pescoço, e com elas, a noite ganhava novos contornos e dimensões. A sensação de sobrevida ao silêncio dos que dormiam, ampliava os sentidos. As pás do ventilador de teto pareciam rodar em câmera lenta. As batidas do relógio, até então, inaudíveis, ecoavam como gongos de uma catedral, acrescidos pelos sons solitários de carros que passavam, distantes, no exterior. Os pequenos pontos de luz de equipamentos em "stand-by" ofuscavam como faróis em alto mar. O corpo parecia extremamente sensível, apesar da rigidez, quase mórbida, adquirida pelo momento. Estar alerta quando todos dormem é uma morte na contramão. Os pensamentos acelerados percorriam o interior gélido sincronizado com a brisa fria da escuridão. Todas as sombras ganharam vida, enquanto sentia a minha própria se esvair naquela mordida chamada insônia.

Definições


Foram tantos recomeços
Que começo a desconfiar
Não pode ser de outro jeito
O que sobrevive, há de ficar

Pensamos decidir
Quando é a vida que escolhe
O que você pensa ser
É exatamente o que colhe

O tempo perdido não volta
Perdemos dando voltas no tempo
Quanto de nós é preciso
Para desfazer nossos nós?

Tudo aquilo que é intenso
É difícil também de esquecer
Porque a parte de nós que se entrega
Não da trégua até pertencer

Atualidade


Será o fim do mundo?
O que acontece com as pessoas e seus universos profundos?
Amigos brigam por motivos banais
A política ganha contornos de torcidas triviais
O amor para a maioria se tornou descartável e sem um quê
"Amo você" está em frases de biscoitos chinês. Porque?
A frustração se tornou inaceitável
E a felicidade virou uma ditadura palatável
Anti-depressivos ganham as passarelas
Os olhos aprisionados em telas
Enquanto tudo corre paralelo
Os sentimentos estão offline, embora conectados por elos
O "EU" não entende o "Nós"
E pequenos problemas são grandes nós
Selfie é uma obra de arte
E arte é qualquer rabisco sem aparte
A diversidade é separada por muros
E não há flexibilidade, todos estão duros
Igualdade se tornou mero discurso
E tudo parece fora de curso
Ninguém tem mais tempo para nada
E educação não vêm mais de casa
Brincadeiras são levadas a sério
"Curtidas" valem mais do que gente e seus mistérios
Vidas carentes pedem apelo
Mas sem postar, ninguém vê, não há zelo
Ainda assim, sempre temos a esperança de mudar
De amanhã ser possível respirar um novo ar
E este momento ser só um tropeço
De uma civilização que precisa de recomeço

Nosso tempo



Com frequência, escuto dizerem "Não pertenço a esse tempo" ou em uma versão mais saudosista "No meu tempo". No entanto, o nosso tempo é o que está ocorrendo agora! E é comum que nossa mente, diante de alguma dificuldade, em alguma área, encontre refúgio no passado (especialmente momentos anteriores à vida adulta, nos quais as responsabilidades eram menores) ou viaje para o futuro (sonhos), visando fugir do presente momento.

Comumente, a esfera afetiva é a que mais se reveste de fantasias pelo imaginário coletivo, cultuando um romantismo e um amor quase impossível. Neste amor, nenhum dos dois tem defeitos, ambos são capazes de renunciar a tudo e de fazer tudo pela felicidade alheia. Isso na melhor das hipóteses, pois na maioria dos casos, se espera isso apenas do outro, sem avaliar o que nós estamos dispostos a
oferecer.

E têm dois períodos na história da humanidade, que contribuíram muito para essa idealização de períodos anteriores ou situações ideais.
O primeiro deles com Platão e a sua filosofia do Mundo "Perfeito" das Idéias. Uma forma tão pura e essencial, além das ilusões da terra e das questões materiais. Ideal que seria revivido no Renascimento com a reconstrução de um mundo, que sobrevivia às sombras da peste, da fome e das lutas medievais, e posteriormente, pelos hippies no sonho de "Paz e Amor" em um mundo envolvido na triste guerra do Vietnã.
O segundo período, nasceria na era Romântica, que faria uma "releitura" dos tempos medievais. E talvez, este período encontre raízes profundas até hoje. Os antigos mercenários foram elevados à categoria de cavaleiros honrados! Camponesas maltrapilhas foram enobrecidas e viraram princesas, esquecendo que apenas a nobreza e seu "sangue real" poderiam por "direito" almejar essa condição! Os castelos abriam suas belas pontes levadiças, esquecendo as ruínas destruídas após tentativas diversas de invasões e dominações. Os românticos definitivamente coloriram uma história que era "preta e branca". E esse colorido, se tornou definitivo, quando viraram os desenhos mundialmente famosos da Disney com seus desfechos "E foram felizes para sempre..."

E essas ideologias de perfeição foram absorvidas culturalmente pelo mundo. Inconscientemente, neste desvio do presente, passamos a fazer releituras de quase todos os períodos da humanidade! "Bom mesmo era o final do século XIX e início do século XX". Será? Casamentos sustentados, na maioria das vezes, por fachada. A mulher sem direito de ir e vir, sendo obrigada a ser do "lar" e muitas vezes, se silenciando a escapadelas do marido..."Eu preferia o fim do século XVIII e o início do século XIX". Será? Casamentos arranjados de acordo com o interesse da família, não havia opção, havia um dote! E quanto mais voltarmos, mas percebemos, que felizmente, o mundo evoluiu!

Os problemas sempre existiram e em todos os tempos! Cada geração, certamente bebia da fonte da anterior. Negava seus defeitos e idealizava suas qualidades. Mas o presente, sempre esteve ali! Convidando cada um para sua mudança pessoal e a própria transformação. Os gênios, se tornaram atemporais, sabiam fazer essa leitura do momento, ainda que muitas vezes, devido a uma forte pressão social, acabassem sendo auto-destrutivos. É difícil nadar contra a correnteza.

Mas até hoje, suas palavras, exemplos e criações são imortais e todas elas nos convidam para viver o agora! Este é o momento exato de fazer a diferença! Não espere um amanhã que depende de hoje para existir e nem um ontem que lhe trouxe até aqui! A melhor forma de não ser devorado pelo tempo é vivê-lo! Não importa quantas histórias foram escritas antes da sua, mas que neste instante, escreva a sua!

Significado


Porque sentimos?
Porque sentidos?
Porque a vida precisa significar...
E apenas o que significa, fica
Nem tudo o que é, se sente
Mas tudo que se sente, é
E ainda que nada disso faça sentido
Mesmo o sentido do nada se faz
Porque não há o nada, sentindo
E isso, por si só, significa