quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Ferida


As vezes, a indiferença
É só um coração machucado

Injusto com quem chega
Mas defesa de quem
Não consegue mais se quebrar
Foram tantas partidas
Que se despede antes
Que alguém queira ficar
Visão distorcida
De um espelho trincado
Que reflete os cacos
Que não vê
Mas há encontros
Que colam
Todas as partes
Um no outro
E faz do outro 
Um novo Um

"Preoculpação"


Hoje, vi um erro de português
PreocuLpação
Primeiro, estranhei
Depois, vi uma certa beleza no erro
Aliás um duplo erro
Não só pela letra a mais
Mas pela causa 
Preocupação ocupa
Mas é muito pior 
Quando é carregada de cuLpa
Esquecer não é omissão
É abrir espaço para soluções
É deixar de ruminar um assunto
E de gestar um monstro:
A ansiedade
Esqueço o erro
Mas esqueça de se preocupar
E por favor, sem culpa
A gramática é fácil de arrumar
Mas o peso do que diz
Pode lhe tirar do rumo

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Diante da dor


Diante da dor
Só vemos os próprios pés
É difícil ver frente
Quando se olha para o chão
Asa machucada não voa
É túnel fechado
Poeira acumulada
Em quem tenta levantar
Não é falta de futuro
Mas excesso de presente
Não é negativismo
Mas estar diante de um não
De quem tudo que espera
É uma palavra que estenda uma mão

Carnavalha


Um bloco passa ao fundo
E ele arrasta uma multidão
Também me arrasto
Com toda minha multidão
Que trago
Trago o ar
E não respiro
Ouço a batucada fora
Mas não é mais alta
Que meu coração
Tanta gente lá
Onde aqui
É só solidão
Fantasias por todo lado
E eu desalmado
de personagens
Desamado
Lá é alas
Aqui alado
Tantos risos
Quando ainda
Procuro o meu
Entre bêbados
E eu embriagado
De emoções
O mundo samba
Meu mundo samba
Na purpurina que levanta
Minhas cinzas que caem ao chão
Até que os dois tempos se encontrem
Numa quarta
Que para eles termina
A vida que em mim começa

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Anestesia


Não é injetável
É inevitável 
Quando penetra o corpo
Pela dor
Que de tão contínua
Entorpece as emoções
A aceitação entra em torpor
?Porque negar
O que até então se afirma?
Deixa sangrar...
Já não dói
Ferida exposta
Se acostuma
É a alma nua
Despida da intenção
De lutar por uma causa
Perdida

Quando o amor chegar


Não use antigas feridas como escudo
Nem indiferença como arma
Não compare ou tente modelar
Receba como ele se dá
Você não escolhe a flor que vai colher
Antes de plantar
Ame!
Vivência é construção
Todo resto é hipótese e imaginação
Talvez não o reconheça de imediato
Mas de imediato?
Só a qualidade do tempo que puderem estar juntos
Lembre-se que ele é cúmplice das suas escolhas
Reciproco na sua doação
E companhia nos seus ideais
Se não está junto, que não esteja ao lado
Liberte-se e seja livre
Voar junto, não é bater asas amarrados
Mas seguirem na mesma direção
Que o abrace
E não solte
Porque se for amor
Nada o tirará dos seus braços
Nem se o mundo acabar

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O pôr do sol ensina


Basta um momento para tudo se transformar
A beleza vive na simplicidade e no silêncio
Rotina não é igual, igual é a forma de olhar para ela
Mudança exige desapego
Encantamento acontece em um instante
A vida se doa sem distinção
Mas para receber é preciso estar aberto
Gratidão é a valorização do tempo
Não temos controle sobre nada
Sentir é aceitar
Dentro de cada um, há um fim e um começo. Todo dia é o momento de renascer.

Ciúmes


Ciúmes é escravidão
De quem sente e sufoca
Uma vida em uma gaiola
É desconfiança de si mesmo
No espelho do outro
É juiz condenatório
De uma causa sem defesa
Acusa para não recuar
Faz acuar
Proteção carrasca
De uma imaginação ferida
E que fere
É a posse que diminui o valor
Só para guardar do mundo
É o ladrão que teme ser roubado
É a farsa de uma dor
Embrulhada como amor

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Deixa ir


Deixa ir
O que machuca
Farpa que não sai
É dor permanente
Deixa ir
O que não acresce
Semente que não germina
É flor morta
Deixa ir
Os apegos
Correntes não são elos
Mas grilhões
Deixa ir
O que esconde o riso
Sem humor
Viver é uma séria anedota
Deixa ir
Sem pensar
Aquilo que preocupa
Ocupa e não fica
Deixa ir
A tristeza
Fonte limpa
É curso que flui
Deixa ir
Essa é a deixa
E se não for
Não espera
Vai...

Carinho


Carinho só é bom
Se for dos dois lados
Reciproco e desejado
Em verso e do avesso
Em um abraço
 apertado
Amassado
Em um suspiro fundo
De inspirar o mesmo ar
De quem escolhe ficar
Carinho não é pele
Mas arrepia
É sentido e nostalgia
Espera do outro se embriagar
Nos poros que se abrem
Nos sentidos que dilatam
Para nunca mais se separar
Carinho só é bom
Se for dos dois lados
O lado de fora que toca
E o lado de dentro que mora
(E que demore)