domingo, 14 de março de 2021

(A)Dia-logo



A cada silêncio
Dos sentimentos não revelados
Se perdiam um do outro
Um estranhamento antecedia
A incompreensão, que no ar, pairava
Até que os caminhos divergiram
E a graça, que os divertia, mudou
A admiração virou ausência
O jeito? Desandou
Diálogo adiado
Sem conversa
Falhou a conexão
De calados, cada um virou para um lado
E quando novamente se olharam
Não se viram mais
Quem eram agora?
As palavras não ditas
Que de tantas esperas
Assumiram o lugar

Relacionamento abusivo

 


Cuidado quando alguém fizer você acreditar que não precisa de mais nada além dela. É como uma serpente rodeando, afastando tudo para poder sufocar sozinha. Não é amor, ainda que se disfarce dele para hipnotizar, limitar seu mundo. Amor quando é amor, não subtrai, porque entende que o mundo que você traz é parte de quem você é. Quem ama não quer parte, quer tudo! E isso inclui amigos, família, filhos, trabalho, defeitos ou o que mais estiver incluído no pacote. Redoma de vidro doma! Ignora sua natureza para ajustar a um perfil controlável. Já o amor confia, dialoga, faz concessões e renuncia, porque acha que vale a pena! Pena? Só em asas, porque lhe faz voar! Mas voa livre, sem correntes e lado a lado.

Ele faz possível, porque ignora impossibilidades! Aliás amor não se apieda, ele impulsiona! Ele está no pulso acelerado cada vez que vê aquele olhar. Amor não usa, ele é o melhor uso que dá aos seus sentimentos! Aliás ele se dá, antes mesmo de receber qualquer coisa! Ele não espera, ele já existe até antes de acontecer. Ele não limita, porque é ilimitado! Limitado é quem lhe julga ou condiciona. Quem rebaixa, busca domínio! Aponta defeitos acreditando esconder os seus. E talvez esse seja um bom indício: quem não assume seus próprios defeitos, nunca irá lhe assumir inteiramente. Não existe amor que rebaixa! Amor em si já é elevação, mas não lhe usa de escada para isso! Sobem de mãos dadas, cada degrau! Só para chegar ao topo e perceber que o caminho juntos, foi mais importante do que o lugar que chegaram.

Término



“Termina! Termina!”
Parece que todas as soluções do mundo hoje se resumem a terminar. Não falo sobre relações abusivas, essas nunca sequer começaram, sempre foram término: término de autoestima, término de confiança, término da real vontade de começar... Me refiro aos términos pela desistência de tentar. Que na primeira queda desiste do caminho, seja relação, trabalho, um novo talento ou a própria superação. Como se felicidade e esforço não coubessem na mesma frase. Todos querem o pódio, sem encarar a pista ou valorizam mais o troféu do que tê-lo conquistado. A felicidade se tornou descartável como os eletrônicos. Para que consertar? Joga fora! Ainda que ninguém saiba o que faz com o lixo gerado e jogado para debaixo do tapete. Puxamos nosso próprio tapete! Sempre há muitos para nos dizer: “Termina”, mas se conta nos dedos, quem estende a mão e nos diga “comece”. Comece agora não deixando assuntos pela metade, tarefas sem solução, ignorando sentimentos, amor próprio sem autoconhecimento ou fé sem razão. Não espere o fim para ser feliz e nem ser feliz para sempre. A felicidade é o caminho e não aonde você quer chegar.
A vida é cíclica como um círculo. E como um, fim e começo são pontos de vista se você não sabe para onde olhar.

Flores

 


Seja como as flores deixando o perfume único da sua existência por onde passar.
Desabroche a consciência, voltando o coração para a luz.
E quando as pétalas caírem, por ventura, que elas apontem o caminho por onde deve passar.
Não permita que o murchar de situações, provoque a amargura, pois na natureza ciclos findam para que outros recomecem.
A maior beleza de uma flor não é o que vê, mas o que ela representa para você. E se mesmo assim, não conseguir enxergar, lembre que a menor das sementes guarda a mais grandiosa árvore.

Sentir

 


Nunca fugi do sentir. Sentir amor, sentir dor, sentir medo, sentir confiança, sentir engraçado ou constrangido. Nunca dei pesos diferentes, pois tudo para mim era sentimento e cada um me ensinava algum aspecto sobre a vida. Talvez seja efeito colateral da intensidade: viver tudo sem negar nenhum lado.
Ser assim me fez causar estranhamentos pelo caminho. Como alguém mergulhado em lágrimas em um dia pode causar risos em outro? Ou falar sobre sonhos após expor sua desilusão? Falar em amor e logo depois sobre a perda? Falar em vida junto com a morte?
Minhas emoções elas não se cobrem e andam na contramão da cultura de hipervalorização de ideais ou ideias seletivas que só focam em um lado.
Valor para mim é tudo aquilo que importa, que muda os sentidos e significados. Logo, tudo importa. Aprendi pelo caminho que a mesma dor/riso que me modifica, também pode auxiliar que o outro reconheça seu processo, pois quando estamos atentos, tudo é sinal do universo.
Não faço da minha vida vitrine ou norma, eu a exponho como é: desregrada! Hoje, há tantos apelos da vida “ideal”. Venda em todos os lugares de modelos que tentam lhe convencer sobre o que deve ser a sua felicidade!
Não quero ser ideal, quero ser real! Sucesso também passa pelo fracasso. Aliás não há ninguém mais bem sucedido de quem escolhe ser quem é, sem a vergonha que esconde alguns lados por aceitação.
Eu não aceito menos do que sinto. Mesmo que disso, resultem perdas. “Cancelamento”? Somos nós que criamos as próprias cancelas pelas comparações sem fundamento! Conhece os bastidores? Então não é real, é ideal.
E não há ideal melhor que a liberdade!
<Fernando Paz>

A beleza da imperfeição



Sempre vi alguma beleza em objetos quebrados, talvez porque aquela “falta” me obrigasse a completar mentalmente a parte, como um quebra cabeça. Ao mesmo tempo, que tirava o foco do todo para me atentar a outros detalhes, que talvez não os perceberia em sua inteireza.
Curiosamente, em tempos de viajantes compulsivos, ruínas nunca foram tão valorizadas. Mesmo que seja ignorado o contexto histórico, se sabe inconscientemente, que aqueles restos guardam a memória da humanidade. A lembrança que as mais grandiosas civilizações ruíram para o surgimento de novas eras. A destruição que inspira um recomeço. Ou simplesmente, uma selfie que vale ouro.
Ouro esse que também é usado por japoneses em uma técnica chamada Kintsugi, que ao invés de restaurar uma cerâmica quebrada, evidencia a emenda com um filete de ouro: a beleza das cicatrizes.
E porque valorizamos as imperfeições da arte, mas temos vergonha das nossas próprias? Aquelas que trazemos no corpo ou na alma?
Cada cicatriz também conta uma história, são as ruínas ou superações pessoais que permitiram o início de um novo ciclo ou entendimento do que somos ou nos tornamos.
Os vikings ostentavam suas cicatrizes como símbolo de força, pois cada uma representava uma batalha vencida. No entanto, hoje, expor uma marca é sinal de fraqueza. E porque?
Porque somos “filhos” do marketing e fraqueza não vende! Nunca foi um bom comercial. Ja viram comerciais de bebida mostrando alguém com cirrose?
O problema que não somos produtos, mas passamos a nos apresentar como tais. Expondo qualidades para que os outros “comprem” essa ideia. Mesmo que muitas vezes, nos violentemos no processo.
Consequência? Dores reprimidas, vozes sufocadas e “quebrados” que embora nos façam únicos, preferimos esconder para atender a idealização de um molde perfeito! Molde que nem sabemos quem instituiu, idealizado para corpos e pensamentos, que nem cabemos.
Essa omissão vem nos custando caro. A sociedade entrou em colapso, como aquelas mesmas ruínas, que hoje ostentamos.
Quando tentar vier antes de ostentar, entenderemos que beleza é o conjunto de todas as partes e que basta uma letra para consertar a impEr-feição e a tornar uma feição ímpAr.
<Fernando Paz>

Dia-logo


Há conversas que mudam um dia
Faz hoje parecer sempre
Trocam retratos antigos
Confidências Interiores
Sendo só e simplesmente o que são
Afinidade da Sintonia
Sincronia da Conexão
O tempo passou e não o viu começar
E o que fica? Apenas o essencial
De um momento tão inteiro
Que divide as melhores partes
Em um livro que parece familiar
Apesar, da história, que ninguém leu


Livro-me


Você foi a poesia que eu esperava
As letras que me faltavam
Quando nenhuma frase estava no lugar
Nunca foi a autoria
Mas a fantasia
De quem entra em um livro (temporariamente)
Para do momento escapar
Sentir na pele
O que só a mente podia tocar
Até que o despertador tocasse
E fosse obrigado a acordar
Devolver o livro para estante
Por um breve instante
Respirar fundo e sozinho
Para recomeçar as obrigações
Obrigado pelas páginas lidas
Mas agora é com a vida que preciso lidar
Sem mais esperas
Ficar atrasado, me desespera
Não percebi o tempo passar
Não posso mais ler você
A realidade me chama
Chama que me queimou
Sua poesia me mudou
Agora, preciso mudar a poesia
E escrever a minha própria história

Cabanas




Nunca fui uma criança típica. Tímido, me atentava aos detalhes e desde cedo aprendi que liberdade era imaginação. Aquilo que não encontrava fora, criava com intensidade dentro de mim. Alguns chamariam de fantasia, mas se eu sentia era real, então escolhi chamar de arte. Arte que se manifestou cedo com um simples lençol.
Amarrava as pontas nas chaves que ficavam penduradas nas portas dos cantos do armário, esticava as extremidades e “voilà” tinha inventado uma cabana. Cabana que cabia e improvisava meu pequeno mundo, rico de histórias que eu inventava e que nunca couberam nos limites do meu quarto.
Agora, arquiteto, me vejo novamente levantando cabanas, não mais com um lençol, mas com madeira e tijolos e levando para dentro delas o mundo de cada um que, temporariamente, sou convidado a estar. Não apenas crianças, como eu fui, mas também para aquelas, como eu, que cresceram.
Nunca se tratou de amor a um ambiente, mas da admiração pela vida que habita em um e com todas as peculiaridades e sonhos que carrega e dá sentido a ele. Um ambiente sem vida são apenas paredes.
Um mundo “mágico”, hoje, materializado e partilhado, que conhecendo o outro e suas histórias me faz constantemente, repensar e escrever a minha própria.

Mono



Nunca gostei de monossílabos
Quando o outro recebe mais do que dá
Nunca gostei de monólogos
Quando o outro dá tanto que não recebe
Nunca gostei de som Mono
Pois só escutamos no Estéreo
E é quase estéril quem coloca mono em qualquer coisa que faz
Monopólio do Ego
Monotonia da repetição
De quem no lugar de um coração
Tem um monólito