domingo, 7 de abril de 2019

Alucinação

Não sou príncipe
Talvez, o dragão
Na base da torre
Em um tabuleiro de xadrez
Xeque mate
Cheque em branco assinado
De uma conta negativada
Negativo de uma foto colorida
Extrato da fruta proibida
Que na primeira mordida é pecado
Mas quando engole é liberdade
Um gole de insanidade
Que provando da minha loucura
Cura sua normalidade

Resiliência


Só a alma que entorta
Sabe voltar ao lugar
Faz parecer conquista
Sua ânsia de lutar
Quando cai de joelhos, reza
E usa os espinhos para escalar
Cada cicatriz é vitória
Quando o topo é onde quer chegar
Sabe que tem asas
E está em constante mutação
Quando caminha é impulso
Pulso para Voar
Mesmo no fundo do poço
Se hidrata com a água
Faz da sombra companhia
E olha para o céu
Pois só conhece a luz
Quem antes provou a escuridão
Impossível é desistência
Improvável é omissão
O que importa tentar de novo?
É tudo novo!

Onlines


Se curtiam calados
Só cliques
De links na tela
Sem trela
Olhares vidrados
Só ares e reações
Conexões em espera
Uma fala desligada
Uma vida imaginada
Em esquecida postagem
Rolagem de página
Para se enrolarem
Margem para marcação
Acenando juntos
Para compartilharem as mãos

Carta ao amigo


Se pudesse me ouvir:
Dividimos o mesmo Fernando 
Me veria Pessoa
E para mim, seria Paz
Introspectivos
Nosso verso seria só...
...expectativa
Entre personagens quase tão “eus”
Que arriscariam ser nossos
Fingindo ser poetas
Como amigos que não fomos
Ele com métrica
Eu esculachado
Ele com tantos
Eu com um só
Ele além-mar
Eu aqui: amar
Ele literatura
E eu literal
Ah que ironia!
Sem a sua morte, Imortal
Talvez, eu, mortal, nem tivesse nascido
Meu irmão mais velho
Como mais novo, copio
A ponto de ser seu heterônimo não escrito
De um livro que ninguém leu

Lá fora


A vida acontece lá fora
No desaforo do peito
Que encara
Escancara
Dá a cara a tapa
Mas não tampa
Sem medo
Sem modo
No murro
Que luta
No morro
Que escala
(mas não cala)
Além do muro
Que enxerga
(mas se ergue)
A vida acontece lá fora
Enquanto tudo sente aí dentro
Na pele
Que contrai
No poro
Que dilata
No polo
Que deságua
No pólen
Que leva
(E eleva)
A vida acontece lá fora
Sem foras
Desforra
Da força
Que torce
Para cada dia
Ser o melhor dia
Que ainda nem começou

Flores


“Não dê flores, dê respeito”. Dê flores sim e respeito também! Dê tudo de melhor que há em você. Não é escolha, é empatia! Até porque quem estende uma flor, perfuma primeiro a própria mão! Floreie os caminhos que passar, mas não deixe para entrega-las em um dia especial, entregue especialmente quando não houver nada naquele dia para fazê-lo especial. E que não seja só para mulheres: homens, crianças, idosos, familiares... sinta prazer em presentear e surpreender. Respeito é sua obrigação a quem quer que seja, mas flores é o desabrochar da sua melhor parte!

Sexo frágil


Cera quente
Mas nunca faz cera
Feito uns ai jogados no sofá
Ela perfumada e blasé
Como uma primavera em Paris
E você suado sem esconder
A realidade de um calor desgraçado e a vontade de morrer
Ácido na cara
Porque se garante
E você ? Peroba do Campo
Não é? Cara de Pau
Pinça fio a fio
Puxados
Enquanto sorri
E você afina a voz com um cravo
E chora como um: despedaçado
Parto Natural?
Rocky Balboa é piada
E ainda sofre encantada
E você ? Desmaiou no primeiro choro
Com o cordão umbilical cortado
Ela sangra todo mês
Fica só levemente alterada
(Nada é perfeito)
E uma vez no ano que você tem seu sangue colhido
Fica tonto e diz que não gosta de médico, se não tiver a mão segurada
Quem disse que mulher é o sexo frágil
Foi um piadista sem alma
Que vendo ela se equilibrar na agulha de um salto
Tropeçou no próprio cadarço desamarrado

Ficar

Não era para se apegarem
Era “ficar” e só
Mas de tanto se pegarem
Tudo deu um nó
Ah tempos modernos...
Namoro agora é proibido
Não ousavam mencionar
Quase libidinoso
Como mudar de status é gozar
Quer sacanagem maior
Do que darem as mãos?
Desnudarem ao mundo
A vontade de gostar?
Não pode ser assim: Explicito!
“Compromisso sério”
Eita palavrão!
Se ainda fosse foder
Verbo polido de um sujeito oculto
Assim ficaram...
Corações virgens
Em corpos experientes
Que gemem alto
Mas amam em silêncio

Você e o outro


Enquanto fica parada
Sofrendo
O outro recomeça
E vai vivendo
Você fica lembrando
O outro lhe esquecendo
Presa em uma página
Do livro que o outro fechou
A vida que você não teve
Romantiza
E ele realiza com outra
Os sonhos que eram seus
Quanto tempo ainda precisa
Para não o querer de volta
E dar a volta por cima?
Abra os olhos para a vida que chega
E diga: “Chega de menos! Eu me amo mais”
Você é o valor que se dá
E o outro? Uma nota de rodapé
De uma página invertida
Que pensou ser o título

Dia da Poesia e da Síndrome de Down


A Poesia divide o dia com a Síndrome de Down.
Quer dia mais especial?
A poesia que se fez corpo para dizer ao mundo que sensibilidade existe além da forma? Ou que a melhor 
expressão é o jeito como algo tão simples pode lhe tocar?
Uma letra a mais que muda um gene, como uma palavra a mais pode mudar todo o sentido!
Quantas vezes a poesia nasce Down para nos fazer Up?
Quantos anjos nascem Down para nos fazer humanos?
Feliz dia à empatia que compreende que diferença é ser único!