domingo, 20 de novembro de 2016

Desalinho



Não serei futuro, nem fui passado
Sou presente como uma chama
Que queima e se apaga em um mesmo momento
Tornando às cinzas que qualquer vento leva

Não sou lembrança, nem sonho
Sou a realidade de um instante
Que dura um piscar de olhos
Existo entre intervalos

Não sou sombra, nem realidade
Sou abstração que não segue regras
Modifico o sentido
Mesmo sem fazer sentido

Não sou corpo, nem alma
Sou uma mente
Que mente acreditando ser corpo
E um corpo que desmente ao mostrar que existo como alma

Não sou riso, nem lágrimas
Ainda que por dentro chore quando sorrio
E muitas vezes, ria de coisas pelas quais chorei

Não sou definido, ainda que tenha limitações
Meus limites se redefinem
Sem encontrar um limite

Não sou constante, nem impermanente
Mas permaneço constante
Em minha impermanência

Não sou fim, nem início
Pois sempre recomeço, quando tudo termina
E termino o que comecei

Dia da Poesia


A poesia nasce de mim ou eu nasci da poesia?
Do encanto de ouvir e entender as palavras pela primeira vez à surpresa de reinventar o sentido e a ordem como se apresentam...
De fato, acho que todos somos poetas, uns ainda aprisionados....Guardam suas metáforas e significações para si mesmos... Outros, já não conseguem mais contê-las em si e despejam como uma represa que foi aberta...
E neste fluxo, escorrem não apenas vivências e emoções íntimas, mas emergem todos os personagens interiores! Na poesia não há regras, nem leis...é um território livre de experimentações! Não há profano e sagrado... Nela tudo existe, consiste, emite e se expressa...A poesia quando lançada, já não nos pertence...Assume vida própria e é interpretada conforme o olhar que a lê ou sente...
Muitos dizem se perguntados: "não sou poeta". Mas a poesia é o encantamento, que torna algo ou uma situação comum em uma experiência única... Quantas vezes, uma flor se destacou de todas as outras? Olhou para o céu e encontrou uma figura desenhada nas nuvens? Quis narrar ou desabafar um dia difícil ou diferente dos outros?
A poesia é a arte do encantamento... Do deleite! Do transbordamento! Da intensidade!
Logo, a partir de agora, mesmo que não possa ou consiga escrever...Verá que todo dia guarda uma passagem única (Rotina não é repetição, repetição é a forma de olhar a rotina)...Seja na cama, na rua ou dentro de si...Na tristeza ou na alegria, na doença ou na saúde, até que a poesia me separe!

Quem sou eu?


Não sou o que você pensa que eu sou....
Não porque eu minta...
Mas porque dentro de mim não cabe apenas uma alma...
Não sou só, mas uma multidão..

Sou eterno e já existia, antes que nos conhecêssemos...
Sou etéreo e meu corpo é pesado demais para transparecer toda a sensibilidade que habita em meu ser...
Rótulos não me aderem, porque constantemente mudo a fórmula de meu existir
Logo, qualquer definição é uma forma simples de abordar a minha complexidade

Não sou da terra, sou universal...
Sou mais do que átomos aglomerados, sou energia condensada
Quando choro, não é por fraqueza, mas porque tudo em mim é amor...
Um amor tão grande que não comporto nesse espaço pequeno emocional
Minhas lágrimas, aliviam a tensão de represar o que sinto
Meu sorriso é justamente, quando me deixo inundar e afogar por estes sentimentos

Não sou o que falo, mas minhas palavras são parte de quem sou
Afinal, mesmo em silêncio, minha alma nunca cala
Não sou o que faço, pois mesmo parado, nunca estou no mesmo lugar
Dentro de mim, mil mundos habitam em uma galáxia particular
Não sou o que tenho. Aliás, pouco tenho. Porque tudo que toco é por empréstimo e carregarei bem pouco, quando precisar partir.

Não sou fagulhas, mas o fogo e a natureza que as gera.
Sou um ser criado e uma criatura que cria. Sou o que imagino ser e vejo minhas escolhas como uma tela em branco que espera ser preenchida.
Enfim, se quiser saber quem sou, não basta que me leia...Nem que use a imaginação...
É preciso a autoria que assina em mim a lembrança perpetua...Sou uma obra aberta e contínua
Vivo através de você, como você vive em mim..

Memórias


Perdemos milhares de memórias e nos fixamos em tão poucas...
Esquecemos o engatinhar, os passos dados até que chegássemos em algum lugar...Criando raízes com as pernas que hoje seguem o mesmo trajeto todos os dias.

Esquecemos a inocência e a delicadeza de tantas descobertas e nos cristalizamos em alguns resultados (eventualmente infelizes). Deixando de lado tantos sonhos para um instante de realidade.

Resumimos anos ao lado de alguém em segundos... E todo o amor construído e as conquistas até aqui se perdem no ruminar de uma partida, uma morte ou separação.

Presos em poucas lembranças, recordamos um passado incompleto e não vemos as infinitas possibilidades de um presente que se revela. E quando despertamos, o presente também se tornou passado.

Somos essa colcha de retalhos ou um quebra-cabeça, que a falta de uma parte resulta numa expressão incompleta do que somos ou poderíamos ser! Não somos uma peça ou parte, ainda que frequentemente , nossas lembranças nos limitem a isso.

A ausência vive no esquecimento, que sejamos presentes e inteiros nas memórias.

Ideologias



Vemos aterrorizados o crescimento do Estado Islâmico, como uma realidade distante e despropositada, no entanto, o mundo vive um período crítico de ideologias...

Ideologias que não respeitam a opinião alheia, respondendo com ironias, que beiram a agressividade.

Pensamentos que se julgam superiores ou "mais corretos" e vilipendiam toda e qualquer ideia que os contrarie, sem conhecimento a fundo da cultura que atacam.

Ideais se sobrepõe a qualquer norma mínima de boa convivência, como as quase extintas gentilezas e educação. Assim, em nome de um "bem maior", se eximem dos próprios erros e imperfeições.

Vivemos um momento de intolerância extrema de pequenas doses diárias a grandes radicalismos.

Voltaire, grande pensador, asseverou: "Posso não concordar com uma palavra que diga, mas defenderei até a morte, o direito de dizer." Bons tempos, que a argumentação não se propunha a uma imposição.

Hoje, certamente, o pensamento é: Se não concordar com uma palavra que disser, defenderei o direito da sua morte para que nada mais diga....

Medos


Tantos medos habitam os homens...

Medo sensato
Ou do próprio ato

Medo do presente
Ou de se tornar ausente

Medo de perder
Ou de se arrepender

Medo do escuro
Ou de não ter cura

Medo improvável
Ou de não ser viável

Medo da solidão
Ou de não ter ação

Medo da dor
Ou de não ter um amor

Medo de ser esquecido
Ou em casos mais sérios, de ter nascido

Medo da incompreensão
Ou de mera pressão

Medo de não ter razão
Ou simplesmente ouvir um não

Medo de se expor
Ou quando necessário, se opor

Medo de tentar explicar ao inconsciente
Que tudo que se sente, nos faz ciente

É preciso enfrentar
Para o medo nos deixar...

Novo ano


Quantas ondas precisamos pular para ver os sonhos realizados?

A vida é como ondas em ciclos de altos e baixos a serem transpostos. Saltar a onda também é uma chance de não sermos arrastados por elas.

Aliás a água representa a vida, a fluidez, a sinuosidade e os diferentes movimentos.

Lançar um barco a Iemanjá, rememorando as antigas oferendas a Marduk, na Mesopotâmia, celebra as férteis e boas colheitas, aguardando que assim tudo continue. Através das crenças, persistimos e esperamos, não apenas no que depende de nós, mas o que não depende também.

Mas para "garantir",  melhor comer o Romã e guardar as sementes. Em períodos de fome, quem tem sementes tem alguma garantia de sobrevivência. Qual fome é maior que a esperança? Sem ela vivemos a inanição da alma...

E se ainda sentir que falta algo? Se vista de verde, amarelo, branco, vermelho ou azul... Precisamos dos símbolos e dos rituais, não pelo significado que eles tem, mas o que queremos e precisamos que eles representem em nosso cotidiano.

Recobrar as forças que um ano nos levou, bater a poeira das quedas que tivemos, recuperar a fé que tudo é algo além de um momento e que cada instante precisa ser celebrado, porque tudo é breve demais. Um brinde de paz e saúde, com isso, todo o resto é possível!

Entre a vida e a morte


Tanto tememos o mistério da morte, mas morremos mais em vida...

Quando desacreditamos nos sonhos e só aceitamos o que pode ser racionalizado
Quando não valorizamos quem somos, o que fazemos e o que temos
Quando não assumimos nossas fragilidades e fugimos do que precisamos enfrentar
Quando doamos nosso melhor para quem não valoriza
Quando deixamos que a dor nos escravize na amargura
Quando não nos perdoamos e nos alimentamos da culpa
Quando somos inflexíveis, rígidos com as situações...
Quando não estimulamos nossa criatividade, nos repetindo em rotina
Quando nos vitimamos, sem esforço de mudar ou assumir as responsabilidades pelos atos

Porque tememos o amanhã se tudo está acontecendo neste instante?

Se a morte for um sonho eterno, que bom é repousar após uma longa jornada
Se a morte for um reencontro de almas, que bom nos reunir com aqueles que partiram e nunca conseguimos esquecer
Se a morte for a dissolução, que bom nos integrar e fazer parte do todo, nos multiplicando como constelações

De todas as mortes, apenas a que ocorre na vida é sofrimento... Que descerremos os olhos e vivamos mais. A liberdade começa aqui e agora, todo resto é crença ou especulação

Karma


Karma é a flecha que atira
Lançada em uma direção
É a arma e a brecha da mira
Buscada de acordo com a ação

Resultados variáveis
Não há castigo ou punição
Aprendizados viáveis
Apenas retiro ou lição

A trilha se estende
Não cabe em uma só vida
Para o brilho que entende
Que não acabe na ida ou vinda

A alma é imortal
Em um corpo emprestado
Uma chama universal
Um adorno esperado

O mundo é mutação
Situação impermanente
Profunda evolução
Na atuação imanente

Pense como uma escola
Tudo é teste e renovação
Lembre que não vale cola
Nisso ateste a repetição

Lacuna


Me sinto parte de uma parte
Um mosaico de pedaços
Um quebra-cabeça incompleto
Um patchwork de retalhos

Me sinto a carta de um baralho
Estudado e embaralhado
Nas mãos que se preparam
Não me encaixo na jogada

Sou uma peça em um tabuleiro
Esperando que me peça
Que me impeça o impulso
E não se despeça, fique