Há dias que ouvimos nossas incertezas
Crendo que sombras são a realidade ou a realidade é feita de sombras
Enxergamos as mãos vazias e o vazio é maior do que cabe nas mãos
Os olhos perdidos não vão além dos próprios olhos
As lágrimas ofuscam e ofuscados, nos afogam
Há dias que o passado, nos passa
Hipóteses de decisões não tomadas, tomadas em um momento de indecisão
O futuro não se propaga e paga o preço que o momento mandar
Nestes dias que a alma imerge em outonos de folhas caídas
Devemos parar para respirar e respirar até que tudo pare
Não é o mundo que está rodando
Estamos rodando no mesmo lugar
Aprisionados no vício de idéias
Viciadas em não mudar
Além de acreditar, é preciso acreditar no Além
Nem tudo que se vê, é e nem tudo que é, se vê
Há dias que precisamos nos vencer, vencer o que precisamos
Mesmo que tudo diga o contrário, nos cabe contrariar o que se diz
Sem se importar com o que vai dar,
Dando valor apenas ao que importa
E se nada disso adiantar, apenas se adiante
Nada nos cabe além de esperar e esperar com a certeza, que nunca acabará em nada
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
O personagem
Gerimos dentro de nós. Alimentamos no ventre de nossos mais profundos pensamentos, uma vida. Diferente de nós, mas parte de nós. Emprestamos nossas experiências, vivências e observações. Mas assim como um filho, assume vida própria e tem sua própria personalidade, moldada pelas oportunidades. O roteiro o define ou sua natureza induz o roteiro?
Como um filho o amamos e nos projetamos nos mesmos..."perdoamos suas faltas" e vibramos com seu amadurecimento. Acompanhamos o seu crescimento dos primeiros passos a sua derradeira definição.
Assistimos ganharem o mundo, assumirem diferentes trejeitos e rostos, de acordo com a forma que cada leitor, que "convive" com ele, encara. Neste processo, já são independentes de nós e ao escritor, só resta a saudade das primeiras linhas, quando o personagem ainda era um rascunho de quem viria a ser.
Um diálogo de estilo
Florbela Espanca desabafa:
Sou errante no mundo
Esperando ancorar
Em um amor profundo...
Caros poetas, o que podem me falar?
Augusto dos Anjos retruca:
Ah! Vocifera a verborragia que chama de amor
Enquanto sonha, a vida não se apieda
E escarra sua dor
Desperta mulher, melhor tempo dedicaria como asceta
Fernando Pessoa tenta contemporizar:
Calma! Que segredos trazem convosco?
Mas convosco não permitais segredar?
Nele sangram lágrimas que esgrimam
Nela choram rimas que não pode suportar
Carlos Drummond timidamente brinca:
Enquanto Espanca busca seus Anjos
Augusto se defende com uma Flor
Em cada Fernando, há muitas pessoas
E em cada Pessoa, pelo menos um Carlos há
Florbela Espanca murmura encantada:
Felizmente, havia um Drummond no meio do caminho...
E ele, assim, "coralinamente", corou...
Os outros, neste momento, não mais prestavam atenção
Entre pontos
Há quem entre em nossas vidas por alguns minutos...alguns dias...uma vida inteira...
Há quem a modifique no pouco tempo presente e quem não conhecemos, mesmo vivendo ao lado por anos!
Há ausentes que não esquecemos e presenças quase esquecidas!
Há palavras não ditas que muito expressam e outras faladas que nada significam!
Há lágrimas de alegria e sorrisos que mascaram tristezas!
Há quem estenda as mãos, esperando reconhecimento e quem seja reconhecido em ações silenciosas.
Há muitas perguntas sem resposta e respostas dadas sem que nada tenha sido perguntado.
Há vidas que viram histórias e histórias simples de vidas!
Entre o que há e o que não há, está você, tentando se achar!
As vezes, basta...
As vezes, basta uma mão
Não antecipar um "não"
As vezes, bastam silenciosos abraços
Para se recuperar os laços
As vezes, basta viver
Para tirar dúvidas sobre o que se vê
As vezes, bastam lágrimas rolar
Para que possa entrar um novo ar
As vezes, basta a simplicidade
Sorrir para a felicidade
As vezes, basta ter calma
Para que o tempo fale a alma
As vezes, basta esperar
Aceitar aquilo contra o qual não se pode lutar
As vezes, basta acreditar
Para que tudo envolta comece a mudar
As vezes, basta um movimento
Para valorizar um momento
As vezes, simplesmente, basta...
Sem justificar...
domingo, 20 de novembro de 2016
A complexa relação com uma aranha
Todo dia, entrava no banheiro e lá estava ela: uma aranha. Percebíamos, reciprocamente, um ao outro. Bastava abrir a porta e logo ela tecia sua teia e desaparecia por um pequeno orifício sob o parapeito da janela.
No inicio, não dei importância. "Foi apenas uma coincidência, em poucos dias, ela sumirá dali" - pensei.
Mas após uma semana, repetíamos nosso ritual: sentíamos a presença um do outro.. Eu tentava, inutilmente, ignorá-la e ela,
rapidamente, tentava, instintivamente, se ocultar. No entanto, a repetição, em algum momento, vira uma complicação. Comecei a achar que deveria fazer alguma coisa a respeito, mas sem coragem de investir contra aquela frágil vida.
Tentei usar religiões para justificar minha apatia. "Estarei impedindo a evolução espiritual de um ser vivo", ou na pior das
hipóteses: "eliminando algum antepassado, que usou àquela reencarnação para progredir" (Achava pouco provável, mas precisava de fortes argumentos). Cheguei a pensar, que como "aranhas existenciais", Deus também deve ficar tentado a nos remover de nossos pequenos recônditos.
Pensei, filosoficamente, sobre "A metamorfose" de Kafka e toda a estranheza, que eu poderia causar à alguém, se fosse aquela aranha.
Ou até, biologicamente, nos benefícios de se ter uma aranha, como a eliminação de mosquitos e outros insetos menores, como
traças.
Pensei na seleção natural darwiniana, afinal eu era um mamífero e racional, estaria um pouco acima de sua escala, para determinar qual deveria ser seu destino. Até mesmo Newton, veio em meu apoio, com sua teoria de que "dois corpos não podem coexistir no mesmo espaço".
Artisticamente, comparei nossas semelhanças, eu com minhas mandalas e ela com suas teias. Ambas radiais e detalhadas...
Por fim, assumi a postura mais covarde, avisei a faxineira: "Por favor, quando limpar o banheiro, poderia remover uma aranha, que está ali?"
Assim, ela faria o trabalho sujo de removê-la e dividiríamos a "culpa". Mas, certamente, ela deve ter eliminado outra aranha, porque ela continuava ali, quando entrei à noite.
Retomamos nosso ritual, que neste momento, já havia se tornado uma guerra fria e hostil. Fazia alguns barulhos para espantá-la e ela por sua vez, perdeu o medo de mim e se impunha no ambiente.
Enfim, assumi minha irracionalidade e anulando qualquer pensamento benevolente, em um golpe único impiedoso, eliminei-a. Hoje, abro a porta e sinto um certo vazio ao olhar aquele local. Por algumas semanas, dividimos o mesmo espaço.
Quando percebi, ela havia reaparecido, desta vez, ocupando minhas memórias, páginas, minhas linhas...Me obrigando, no fim, a tecer estas palavras.
A utopia
Quando criança, imaginava que o futuro seria como o desenho animado "Os Jetsons". Esteiras automáticas pela casa, carros voadores, robôs,...
Efetivamente, evoluímos muito tecnologicamente. Em muitos pontos, até mesmo nos assemelhando aquela realidade. Não voamos, mas estamos conectados a tudo e a todos. E apesar de tantos avanços "técnicos", o mundo ainda vive atrasos "passados".
As tribos africanas,ainda quase pré-históricas, lutando pela sobrevivência...
As cruzadas medievais no Oriente Médio, usando a fé, para conquistas territoriais...
A máquina industrial sobrepondo a condição humana. Trabalhos árduos e exploratórios, consumindo o homem e a natureza sem preocupação.
Sistemas políticos, rememorando o "pão e circo" romano, as monarquias e o Estado "Paternalista", cuja sede de poder se
sobressai e ilude as reais necessidades do povo.
As mortes banais, refletindo os antigos duelos, enterram vidas a cada esquina.
Doenças assolando as massas, como as pragas e pestes incompreensíveis.
O mundo, de fato, mudou. Trocou os espartilhos por calças jeans. As ceroulas por cuecas samba-canção. Trocou a música clássica pelo funk e as perucas por tintas no cabelo. A forma está diferente, mas o conteúdo, ainda carrega as antigas tradições.
Deixamos para trás, os filmes mudos e em preto e branco, para abrir os jornais e nos depararmos com tristes notícias sem cor e que nos leva a calar.
Hoje, concluo, que a beleza daquele desenho animado, não estava somente na fantasia, mas na possibilidade de sermos melhores, sermos uma "família", que convive com suas diferenças e dificuldades com união. Hoje, adulto, é o futuro que sonho.
Solitários Anônimos
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Um mundo com tanta gente e você consegue a proeza de se sentir só?
Deslocado no tempo e espaço, perdido dentro da ilha que existe em você mesmo?
De todas as dores e doenças do mundo, nenhuma é tão profunda quanto a solidão...
Afinal, podemos estar doentes e sem dinheiro, mas com companhia, tudo parecerá mais suave, será?
O mais difícil de se sentir só é o contra-senso de se fazer só, ou seja, mesmo querendo companhia, nos isolamos.
A solidão é um ato (in)voluntário e íntimo, não depende de fatores unicamente externos. Quando não conseguir estar presente em sua vida, certamente, se sentirá só. Assim, no fim, a ausência não é de pessoas, mas de si mesmo.
Assim, eis o nosso mantra: "não estamos sozinhos, temos a nós mesmos por mais 24 horas"
Os 12 passos:
-Admitamos que não somos impotentes contra a solidão.
-Manter a sanidade e a confiança em si mesmo como um Poder Superior
-A vontade de existir e de ter um objetivo, recria o universo ao nosso redor.
-Auto-conhecimento é sempre bom, mas que existe um mundo fora, além do interior.
-Expressar o que sente e exteriorizar emoções auxilia a sensação de "fazer parte"
-A auto censura é uma prisão e tudo que repetimos, vira a nossa verdade
-Buscar defeitos nas pessoas e nas situações é uma fuga para não ter de encará-las. Sabotando as possibilidades
-ter a coragem de procurar as pessoas, nem que seja simplesmente para saber como elas estão. A consciência que o outro existe além de nós mesmos.
-Lutar contra a apatia, fazendo o possível. Sem movimento, tudo é estagnação.
-Admitir que a solidão é uma dependência e que só há cura na aceitação desta verdade
-modificarmos todos os pensamentos impostos e repetidos, criando novos que os substituam. Substituindo negações por afirmações e dúvidas por certezas. Como um mantra e uma reprogramação mental
-Tendo experimentado todos estes passos, utilizar a experiência para auxiliar outros que assim se sintam.
Faces da mesma moeda
Hoje estou aqui e amanhã onde estarei?
Certamente, escrevendo histórias que não planejei
E os planos? Nem sempre serão histórias, que escreverei
Desejamos tantos planos que mudamos
E mudamos por tantos planos que não desejamos
Conhecemos pessoas que não esperamos
E esperamos por pessoas que o tempo nos leva a desconhecer
Coisas que não importavam, agora são imprescindíveis
E as vezes, é imprescindível não se importar
Vivências viraram lembranças
E as vezes, lembramos do que não vivemos
Erramos por falta de compreensão
Mas compreendemos o erro da falta
Quantas vezes nos perdemos tentando encontrar
E nos encontramos, enquanto perdidos
No fim, acreditamos que vale esperar
E esperamos acreditar até o fim
Pessoas que se importam demais
Todos sentimos e nos importamos... Embora sentir e importar sejam experiências e intensidades únicas de cada um...
Até porque o que importa para Um pode não ter a mesma importância para outro...Assim como as coisas que tocam a sensibilidade de alguém, podem simplesmente ser insensíveis para outros...
Mas dentro de milhares, sempre há alguns que importar se sobressai ao que se espera...E que mesmo fatos e situações sem importância aparente, importem significativamente.
Sempre fui deste time. Daqueles que se permitem encantar com detalhes perdidos pelo caminho...Diria que tenho um olhar "insatisfeito", pois nunca me conformo com o que vejo, ou melhor, nunca é suficiente. Atrás de cada imagem, vejo uma história e por consequência, sou sempre transportado para ela. Desde a folha desprendida da árvore que é levada sem direção... Sem que saibamos a origem ou o destino final... Ao indigente na rua que como eu e você, também foram crianças um dia...até que oportunidades ou a falta dela, deixaram-os ali abandonados ao chão...
Não é um movimento simples, como tudo que é demais! O excesso é perturbador e desconcertante. Ainda mais quando se é homem! Ainda vivemos em um mundo que homens e emoções, por vezes, se estranham. "Homem não chora". Bem, confesso que chorei muito até aqui, o que não me fez menos homem. Disfarcei muitas vezes com um meio sorriso, sem com isso eliminar o que sentia. Não apenas lágrimas de tristeza, mas muitas vezes pelo que me toca, o que é um problema, quando tudo me toca! "Let it be"(deixa estar, deixa para lá)... Confesso que sempre tentei, mas sentir não é uma escolha, mas uma condição. Não sentimos porque queremos, mas porque precisamos! Precisamos na vida de sentidos! Não falo dos 5 sentidos somente, mas de (e)motivos ou motiv(ações).
Importar é uma ação! E não é passiva, como comumente se pensa. Afinal, é impossível sentir, sem se colocar no lugar!
Se como eu, se importa demais, não se preocupe, não está só, como algumas vezes se sentirá. Não ser compreendido, as vezes, nos faz sentir como náufragos em uma ilha, longe da civilização. Mas como todos, sua visão do mundo é única. Não precisa de cura, mas de abertura e de fluidez, sem represar... Para que os pratos da balança se equilibrem. Mas se não se importa com nada disso, não se preocupe... Basta deixar para lá!
No final, as coisas têm a importância que damos a elas!
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