sexta-feira, 24 de março de 2017

Publicação


Não quero reservar nada
Quero doar tudo
Não levarei nada com a morte
Que pelo menos minhas palavras, vivam
Se um dia, pensar em publicar um livro
Pode ser que nada seja inédito
Mas nada é novo para mim
E se alguém ainda lembrar do que foi escrito (o que duvido)
Talvez, encontre em minhas linhas, novo sentido
Porque até meus sentimentos mudaram
E a mesma frase, nunca é igual em dois momentos distintos
Mas sempre me dizem: "podem roubar os seus textos"!
Mas eles nunca me pertenceram
Sim, vieram por mim, mas como filhos, não são meus
Mas está tudo lá, legalmente registrado e batizado, caso ainda reste alguma dúvida entre nossa familiaridade
Mas se isso ainda não basta, eu digo: Basta!
Podem levar! Não quero nada!
Porque se guardar, me enveneno..
E de que me servirá o veneno, estando morto?
E se ainda assim, nada mais restar...
Me resta escrever tudo novo, tudo de novo,...
O que escrevi, não me importa. Passou!
O que escreverei sim, ainda nem começou...

quarta-feira, 22 de março de 2017

Ser-tão


Sou a flor que não saiu da semente
Um homem que ri, enquanto chora
Sou o toque que viu e não se sente
De um tempo, sem qualquer hora

Sou beijo sem boca
Mãos que seguram o ar
Sou a vaga que reboca
De um sonho, sem despertar

Sou a companhia solitária
O amor que não soube dar
Sou a sombra de um pária
Parado em esperar

Sou fator x em equação
Um achado para quem não procura
Sou movimento sem ação
Da doença sem cura

Sou piedade sem dó
Uma música surda
Sou da terra, o pó
Ofertado em uma muda

sábado, 18 de março de 2017

Escrita Profana


Quero meu corpo no seu
Seu corpo no meu
Sem mais saber o que é meu ou seu.
Quero a entrega lenta, que desalenta
Sem medida, sem trégua, sem nada entre nós
Entre nossos nós, Sem nada em nós,
Nós até que não sobre nada
Quero que seja intenso o pertencer
Tenso o tecer de nossas linhas em desalinho
Pretensão? Tesão? Tropeço? Entorpeço?
Melhor não falar nada.. Vou me portar!
No fim, não importa o falo, mas o halo que só existe
Quando cá amamos e colados, calamos

sexta-feira, 17 de março de 2017

Saudade virtual


Como podemos ter saudade do que não foi vivido?
Quando a alma passeia sem o corpo
Despida das pressões do mundo e sem importar, se entrega
Como espírito, não toca, transpassa...
Na imaterialidade de sonhar tudo que poderia alcançar
Nas hipóteses incertas que calcula
Na falta de regras e impossibilidades
O que não foi vivido é um lugar de oportunidades, onde tudo criado, é!
Sem poréns, sem porquês e só saudades...
Saudades do melhor de si mesmo que não conheceu

quarta-feira, 15 de março de 2017

Nostalgia


A nostalgia é uma brisa que invade a mente, removendo os lençóis da memória.
É a lembrança revisitada, que restaura as cores, hoje perdidas, no tecido desbotado e embolorado.
É o perfume que reconstrói um lugar, reposiciona os móveis, materializa objetos descartados e aproxima pessoas, há muito, distantes.
É quando o presente redescobre o passado, emprestando à ele suas próprias tintas, fazendo assim uma releitura dos fatos.
Nada é preciso, mas há uma magia na imprecisão. Há um direito de autoria outorgado apenas a quem viveu a história. (Ainda que nos apropriemos de muitas, uma vez que as ouvimos e queremos levar adiante)
Nostalgia não é saudade, ainda que caminhe de mãos dadas com ela. É a viagem, o processo, a reconstituição de uma parte que existe, embora silenciada em nós.
Mas é indomável, não aceita nossas vontades e nos leva a encarar as mudanças. Tudo mudou, ainda quando as coisas permanecem no mesmo lugar
A casa não era tão grande, nossos corpos eram pequenos diante dela. As proporções mudaram, mas o sentimento não. Aquele cheiro ou gosto não era o melhor do mundo, mas a vida ainda não tinha nos apresentado nenhum melhor. E o futuro era distante demais para imaginar tudo que cada instante se transformaria.
A nostalgia são as raízes, o ninho e o ventre. É o canto dentro de nós conhecido e que nos dá segurança.
O retorno necessário para ajustar os parâmetros e seguir adiante!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Toque


Toque é comunicação
Dois corpos que conversam em silêncio
É a expressão contida
Manifesta na vibração da pele
É a liberdade em braile
Que ofertamos pela proximidade
É conexão ou repulsão
De quem doa ou cede
É a variação emocional
Exercida pela pressão dos dedos
Toque não tem retoque
É a primeira impressão
Quando a alma diz ao outro em segredo:
Fica aqui ou não volte mais!

domingo, 12 de março de 2017

Corpo


Corpo não é pecado
É a arte que modela a alma

Corpo não é violação
É a doação e altruísmo de existir para um outro olhar

Corpo não é assédio
Mas a casa que escolhemos quem pode entrar

Corpo não pode ser agredido
Pois é nossa antena das sensações do mundo

Corpo é a vida em movimento, o tempo em transformação...
Não é adorno, mas também não é condenação...

Não vivemos para o corpo, mas o corpo vive por nós


sexta-feira, 10 de março de 2017

Portas Fechadas


Parecia a casa perfeita. Tudo tão florido. Queriam entrar. Tentavam espiar através das janelas, mas nada viam. Tentaram as portas, mas estavam fechadas. Deveriam ir embora, mas insistiam sem resultado. Sentaram e esperaram algum sinal do interior, sem retorno. Mas porque ficavam, quando tudo dizia que deveriam ir?
Porque insistimos em situações fechadas? Será o desafio? A idealização? A fantasia de crer que ali dentro reside a esperança do que não encontramos fora?
Quaisquer que sejam os motivos, sem abertura, nunca será uma entrada suave. Ou será uma invasão, posteriormente denunciada, ou mais tarde, seremos obrigados a nos retirar.
Nada que não seja espontâneo e livre, permanece. Porque como casas, não adianta forçarmos. Ainda que fossemos aceitos, sem convite, seríamos sempre estranhos. E é necessário aceitar isso, se queremos ser acolhidos.
Toque a campainha com calma, ninguém atendeu? Não insista. Siga adiante....Em algum lugar, alguém abrirá suas portas e convidará para tomar um café.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Carta às mulheres


Hoje, no Dia Internacional das mulheres, resolvi falar sobre os Homens. Sim, você leu bem, os Homens. E não falarei das peculiaridades que as mulheres vem lutando contra há tanto tempo: machismo, segregação, assédio, desigualdade... Por mais que sejam grandes chagas, é um ponto que, felizmente, tem sido discutido amplamente e , cada vez, com mais frequência. Ainda que, o que quero falar, ajude a levantar novas questões sobre essas causas. Também não estou aqui para exaltar características masculinas, no dia que deve ser uma Ode à mulher. Então o que faço aqui?
Falarei das pressões sofridas pelos homens quando tangenciam o universo feminino. Não estou falando de "orientações sexuais", mas de pontos comuns, que também sofrem preconceito e , muitas vezes, pelas próprias mulheres.
Hoje o Dia Internacional da mulher é uma relevante conquista e luta feminina pela igualdade dos direitos civis, sua inserção social e liderança. E assim como as mulheres desafiaram um senso comum enraizado no patriarcado, é hora de dar voz a um outro lado dos homens, reprimido pelo mesmo patriarcado.
"Homens não choram", "Homem sensível é gay", "Homem é razão, mulher é emoção", "homem não pode ser fraco", "homem precisa ter pegada"..ditos populares repetidos à exaustão ...E esses homens, entre os quais me incluo, não encontram nenhuma voz, que se junte a eles na defesa de quem são. Enquanto se luta arduamente pelo que o homem NÃO deve ser, pouco se fala, sobre o que ele PODE ser.
Sim, eu choro. Me sensibilizo pelo mundo que vivo. Minha emoção e razão frequentemente se conflitam. Sou inseguro e não escondo minhas fragilidades. Admiro as coisas belas e delicadas. Penso que gentileza e ser educado não tem sexo.
Falo em primeira pessoa, mas não estou ditando norma de conduta, cada um é senhor(a) de si, mas quero dizer com tudo isso, que não deixo de ser menos homem por isso. E espero ser aceito pelo que sou, sem precisar omitir, disfarçar ou ser taxado como "estranho".
Se nesse momento todos buscam a integração social, sejam mulheres, LGBTs, negros e afins.. ser homem, hetero e sensível também precisa ser abraçado nessa luta, se esperamos efetivamente uma sociedade justa e que integra todos os fatores.
Quanto mais homens falarem abertamente do que sentem, quanto mais mulheres não os julgarem por isso e os apoiarem assim, mas próximo de um real equilíbrio estaremos. Mais ajustados a nos aceitarmos, uns aos outros, exatamente como somos.
No dia das mulheres, falo de homem para mulher. De sensibilidade para sensibilidade. Aceitem homens diferentes e poderão enfim encontrar o mundo diferente que buscam!

terça-feira, 7 de março de 2017

Amores condicionados


Amor, nunca deveria ser acompanhado de um porém. "Amo você, mas...." Quando acontece assim, nunca é inteiro, livre e disposto. Nunca é futuro ou sonho, quando muito, é um presente, que vivemos dia a dia, tentando nos equilibrar para não cair na realidade de medos e incertezas.
Normalmente, amores condicionados nascem de paixões intensas. Paixões que nos cegam a tal ponto que aceitamos qualquer situação desde que fiquemos juntos.
Exatamente como uma droga, que um instante de prazer, nos exija a repetição contínua para não perdermos aquela sensação do momento. E como uma, afeta nossa percepção, altera nossa consciência, nos dá abstinência...
Na brevidade da lucidez, nos sentimos vazios e sozinhos, logo retornando ao ciclo vicioso para negar e anular o fato.
O condicionamento é uma ilusão que tenta se encaixar em uma história na qual nunca coube.
Que esmola uma parte pela fome de um todo. Chega a se violentar por um pouco de esperança. Mente para defender o que quer acreditar: "é amor". Mas que amor é esse que sobrevive ao invés de viver?
Pode ser qualquer tipo de amor, mas certamente ignora o mais importante deles, o amor próprio. Cuida do outro, mas não dá atenção a si. Se ausenta de si mesmo, quando qualquer relação saudável precisa dos dois presentes.
Amores que não podem ser sem senões, também não podem ser felizes.Quando dois querem, um não se perde...