segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Ciclo



No início, doía ter que lidar com as partidas. Esquecer tudo que eu sabia de alguém e recomeçar mais uma vez. As mesmas perguntas se repetiam: “o que vc gosta de fazer?”. Embora cansado, disfarçava para mim mesmo: “dessa vez será diferente”.
Mesmo lutando, a repetição vencia. Machucado no fim pelo que eu queria começar. Uma parte de mim morria, enquanto outra tentava se levantar. Tentava me consertar. Abraçava a esperança, batia o pó e seguia em frente.
Quem eu escolhi? A mudança. Mudar a música de fundo, o lado do caminho, o livro de cabeceira, ou simplesmente, o jeito de olhar. Sair do drama, assistir comédia e rir do que até então me fez chorar.
Partidas? Ainda aconteceram, mas onde há amor próprio, não existe vazio no lugar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Mãos dadas



Sempre gostei da imagem de mãos se encontrando. Considerava expressivo. Fosse simbolizando a união de um casal ou de amigos se cumprimentando. Transmite uma conexão.
Lembro, na adolescência, de ter ouvido o ator Tony Tornado dizer uma frase que nunca esqueci: “Duas mãos quando se encontram refletem a sombra de mesma cor”. Uma frase simples nos lembra, que independente de sexo, cor, religião, lado político,etc... apertar a mão devolve e mistura nossa humanidade. Assim como, qualquer sombra projetada é igual. O corpo se encontra pelas mãos, mas são as almas que se cumprimentam. E enquanto não entendermos que somos mais que um corpo, viveremos com nossa compreensão limitada. Se nos guiarmos pelos olhos, tudo será ilusão, porque como asseverou uma “criança”: o essencial é invisível. Dedos também são diferentes uns dos outros, mas apenas juntos resultam no funcionamento pleno de uma mão. Somente quando as diferenças que existem na sua mão se entrelaçarem as diferenças da mão do próximo, entenderá que tudo que damos a alguém é dobrado no mesmo instante. E se um dedo pode se quebrar com facilidade, duas mãos juntas são inquebráveis. O que talvez explique o porquê de uma prece ser feita com duas mãos juntas. Comunhão universal.

Solidão Acompanhada

Solidão acompanhada é estar só ao quadrado. Não é andar de mãos dadas, mas andar amarrado, só para dizer que é amado.
É abrir mão da liberdade e das convicções, não por alguém, mas pelo medo de estar consigo mesmo. Ocupar-se para não sentir culpa. Uma desculpa por medo do fracasso. Ainda que cada dia junto seja uma derrota.
É ficar pelo motivo errado. Não porque acredita no relacionamento, mas porque teme a falta dele. E fugindo da solidão, termina por abraça-la.
Nunca é fácil se separar de um ideal. Tal oásis no deserto, que dizendo ser água, bebe areia.
Não mata a sede, mas cede e mata até que decida se valer por dois.

Migalhas

“Floresta adentro, as crianças iam jogando migalhas de pão no chão para que pudessem encontrar o caminho de casa pela trilha feita. Porém, quando resolvem voltar para casa percebem que as migalhas haviam sido comidas pelos pássaros da floresta e que estavam perdidos.” (João e Maria)
Migalhas são a mão estendida (ou seria o coração?) na espera de receber aquilo que não é espontâneo.
Luta, intensamente, por algo que ja perdeu, enquanto se perde também.
Acha que marca o caminho, mas acaba sem ter por onde voltar.
Anseia a árvore quando, visivelmente, é um quebra galho e nisso, ao invés, do bom uso do que sente, aceita que vire abuso.
Ha quem alegará, que precisa paciência para uma mudança ou que o “amor transforma”, mas a única mudança que temos alguma influência direta é a pessoal e o amor realmente transforma, mas aquele que exerce o amor. Quem não ama, não muda, mas se acomoda na sombra do amor do outro. Um doando tudo que tem para o outro que não tem nada para dar. Um parasitismo emocional.
Nada, que venha acompanhado de dor, cresce. É bolo sem fermento. Inflado de ar até que estoure e só reste vazio.
“Amor não espera nada em troca”. Se é amor, não precisa esperar, ele não precisa de esforço, se dá! E é sim uma troca: mútua! Ainda que nem pareça com uma, pois torna sinônimo as palavras dar e receber.

Estranhês

Estranhês é uma língua quase morta de quem tenta se comunicar com os vivos. Originária do distante país dos sonhos, sua origem etimológica deriva da palavra "estranha", que divide o radical com "entranhas", porque vem do íntimo profundo.
Dialeto dos intensos, sensíveis e loucos, da marginalidade das regiões nostálgicas, sua compreensão só é possível com uma grande conexão, que entende expressões até mesmo quando faltam palavras.
Seu código escrito é poético e a sua fonética é musical. O sentido do que é dito só cabe no que se pode sentir. Sua tradução é livre, pois sua gramática não segue regras, ou melhor, a única regra é que o momento importe.
Não há curso, pois o aprendizado é o próprio percurso, por vezes solitário, até que no caminho encontre alguém, que entoe a mesma voz.

To(LER)ância

Religião é escritura
Religiosidade é conduta
Escritura é aquilo que você acredita
Conduta é o que faz daquilo que acredita
Religião é instrumento
Religiosidade é semente
Instrumento prepara
Semente frutifica
Religião é estudo
Religiosidade é aprendizado
Estudo é dedicação
Aprendizado é compreensão
Religião é religar
Religiosidade é conexão
Religar é receber
Conexão é transmissão (doar)
Religião é templo
Religiosidade é natureza
O templo segrega
A natureza partilha
Religião é dogma
Religiosidade é conceito
Dogma é indiscutível
Conceito é reflexão
Religião não é salvação
Isso é proselitismo
O que salva é a própria interiorização
Manifestação da religiosidade
Que faz a Fé-licidade!

A origem das relações abusivas

Sempre me perguntei o que faz que algumas mulheres tolerem grandes traições e abusos, persistindo em relações tóxicas, uma vez, que o inverso dificilmente aconteceria? Como já ouvi algumas vezes: “É a crença no amor”. E desde quando o amor torna alguém submisso dando poder ao outro de dominador? Sempre precisamos de um motivo para justificar nossas ações e nisso, diante de um eventual fracasso, corremos o risco de nos agarrarmos a um ideal e sermos injustos conosco mesmos. Neste caso específico, o amor é consequência e não a causa que aprisiona alguém. Assim, isento o amor de ser vilão ou herói nessa história.
Você percebe que envelheceu quando recorre ao passado para explicar o que não entende no presente. Despindo o romantismo das fábulas medievais, a instituição casamento por séculos foi um grande negócio. Negócio intermediado por um dote no qual a família da mulher “vendia” a noiva, gostasse ela ou não. Muitas vezes, visando status social de ambas as famílias, ou no caso de famílias nobres, uma grande jogada política que fazia do seu potencial adversário, um aliado.
Entrando na intimidade do casal, tínhamos uma esposa sem direito algum, senão carregar o nome do marido e dar filhos ao mesmo (de preferência meninos). Uma “escravidão” socialmente aceita e apoiada pelo Estado e pela Igreja. Sem direitos, a mulher se via obrigada a tolerar os desmandos e traições do marido, que por sua vez, se sentia provedor e proprietário da mesma.
Divórcio era impensável, contrariava as leis “sagradas” e humanas não importando o “inferno” que passasse. As mulheres, como os demais escravos, não tinham direito sobre suas próprias vidas e caso se rebelassem ou fugissem, seriam responsabilizadas e condenadas, não importando a justa motivação. Seriam execradas socialmente e passariam a viver a partir de então, marginalizadas e carregando uma má fama até o fim de seus dias.
No Brasil, apenas com a República em 1890, o casamento perdeu o caráter religioso e em 1916, o divórcio se tornou um instrumento legal. Legal juridicamente, porque os juízes dos “bons costumes” continuariam sua peregrinação de condenações injustas.
E assim, retorno ao presente e nem parece que se passaram séculos dessa história. Homens traindo, matando e abusando psicologicamente de mulheres “escravizadas”, dizendo para si mesmas ser um ato de amor para escaparem do peso de um julgamento que carregam inconscientemente. Porque assim como no passado, lutar pela sua liberdade parece uma luta contra sua própria vida e nisso, infelizmente, muitas vezes, perdendo sua vida literalmente no processo.
Felizmente, a história, mesmo lentamente, evolui. E vícios sociais se revelam uma droga e por consequência denuncia usuários dependentes da mesma. Nesse caso, o tratamento precisa ser uma conscientização coletiva. Os tempos mudaram, mas é preciso mudar o tempo que carregamos dentro de nós. Não se aprisione em ideais, seja o seu ideal e que o amor ao próximo venha de mãos dadas com o amor próprio.
Empatia não é apenas se colocar no lugar do outro para saber o que sente, mas pensar se o outro no seu lugar aceitaria as mesmas atitudes.
Dizem nos grupos anônimos: Mais 24 horas. Faça a diferença na sua vida nas próximas 24 horas. Termine com qualquer mal que vivencie e que a sua vitória seja assim, a vitória de todos por um mundo melhor.

Partidas

A vida é feita de tantas partidas. Pessoas que por um empréstimo do tempo, partilham alguns momentos, criam lembranças até que tudo seja passado. Voltam ao anonimato, mesmo que saiba seus nomes. Andarilhos do destino que mostram um caminho, mesmo que não faça mais parte dele. Mudam você e se mudam. Passam a habitar o distante país das lembranças que só pelo sentimento é possível acessar. Um trailler de um filme que não pôde assistir. Uma ligação na desconexão. Estranho imaginar se do outro lado você foi memória ou esquecimento. Passagem ou passageiro? Uma viagem de ida, que mesmo sem permanência, você nunca volta para o mesmo lugar.

Refúgio

É algum lugar seguro dentro de si, que resistiu ao bombardeio emocional. É a memória intacta de lembranças quebradas para onde os sentimentos sempre voltam e lhe dão o estímulo de recomeçar. São pessoas e cenas que já não fazem parte do cotidiano, mas os quais a mente procura através de atividades que desenvolveu com elas ou durante um sonho quando as materializa. São abrigos, quase lúdicos, que guardam um olhar da vida, antes que a vida mudasse seu olhar. Um retorno ao interior da concha para a pérola que não está mais lá.

Conto de fatos

Vamos parar de romantizar relações abusivas?
Ofensa não é um descontrole momentâneo, mas a denúncia de uma raiva contida que esperava uma oportunidade para sair.
Controle não é proteção, mas dominar as suas escolhas para que pense que o outro é sua única escolha.
Determinar suas companhias não é seleção de RH, mas demitir você das suas relações sociais.
Desqualificar não é crítica construtiva, mas é destruir a autoestima de alguém para que pense ser melhor do que ela.
Indiferença não é falta de tempo. É não ocupar-se do que julga não importar.
Desculpas sucessivas não são reconhecimento da falta, mas certeza da impunidade. A melhor desculpa é aprender e mudar com o erro sem dar chance para comete-lo novamente.
Sexualizar todos os momentos juntos não é conexão, mas escravização dos sentimentos pelas sensações do corpo.
Tapa? Não é uma contração involuntária, mas a violência objetivada. Que mira o medo e mata o amor próprio.
Relação abusiva não é um conto de fadas, mas quem fantasia um final feliz até o seu próprio fim.