domingo, 14 de março de 2021

Flores

 


Seja como as flores deixando o perfume único da sua existência por onde passar.
Desabroche a consciência, voltando o coração para a luz.
E quando as pétalas caírem, por ventura, que elas apontem o caminho por onde deve passar.
Não permita que o murchar de situações, provoque a amargura, pois na natureza ciclos findam para que outros recomecem.
A maior beleza de uma flor não é o que vê, mas o que ela representa para você. E se mesmo assim, não conseguir enxergar, lembre que a menor das sementes guarda a mais grandiosa árvore.

Sentir

 


Nunca fugi do sentir. Sentir amor, sentir dor, sentir medo, sentir confiança, sentir engraçado ou constrangido. Nunca dei pesos diferentes, pois tudo para mim era sentimento e cada um me ensinava algum aspecto sobre a vida. Talvez seja efeito colateral da intensidade: viver tudo sem negar nenhum lado.
Ser assim me fez causar estranhamentos pelo caminho. Como alguém mergulhado em lágrimas em um dia pode causar risos em outro? Ou falar sobre sonhos após expor sua desilusão? Falar em amor e logo depois sobre a perda? Falar em vida junto com a morte?
Minhas emoções elas não se cobrem e andam na contramão da cultura de hipervalorização de ideais ou ideias seletivas que só focam em um lado.
Valor para mim é tudo aquilo que importa, que muda os sentidos e significados. Logo, tudo importa. Aprendi pelo caminho que a mesma dor/riso que me modifica, também pode auxiliar que o outro reconheça seu processo, pois quando estamos atentos, tudo é sinal do universo.
Não faço da minha vida vitrine ou norma, eu a exponho como é: desregrada! Hoje, há tantos apelos da vida “ideal”. Venda em todos os lugares de modelos que tentam lhe convencer sobre o que deve ser a sua felicidade!
Não quero ser ideal, quero ser real! Sucesso também passa pelo fracasso. Aliás não há ninguém mais bem sucedido de quem escolhe ser quem é, sem a vergonha que esconde alguns lados por aceitação.
Eu não aceito menos do que sinto. Mesmo que disso, resultem perdas. “Cancelamento”? Somos nós que criamos as próprias cancelas pelas comparações sem fundamento! Conhece os bastidores? Então não é real, é ideal.
E não há ideal melhor que a liberdade!
<Fernando Paz>

A beleza da imperfeição



Sempre vi alguma beleza em objetos quebrados, talvez porque aquela “falta” me obrigasse a completar mentalmente a parte, como um quebra cabeça. Ao mesmo tempo, que tirava o foco do todo para me atentar a outros detalhes, que talvez não os perceberia em sua inteireza.
Curiosamente, em tempos de viajantes compulsivos, ruínas nunca foram tão valorizadas. Mesmo que seja ignorado o contexto histórico, se sabe inconscientemente, que aqueles restos guardam a memória da humanidade. A lembrança que as mais grandiosas civilizações ruíram para o surgimento de novas eras. A destruição que inspira um recomeço. Ou simplesmente, uma selfie que vale ouro.
Ouro esse que também é usado por japoneses em uma técnica chamada Kintsugi, que ao invés de restaurar uma cerâmica quebrada, evidencia a emenda com um filete de ouro: a beleza das cicatrizes.
E porque valorizamos as imperfeições da arte, mas temos vergonha das nossas próprias? Aquelas que trazemos no corpo ou na alma?
Cada cicatriz também conta uma história, são as ruínas ou superações pessoais que permitiram o início de um novo ciclo ou entendimento do que somos ou nos tornamos.
Os vikings ostentavam suas cicatrizes como símbolo de força, pois cada uma representava uma batalha vencida. No entanto, hoje, expor uma marca é sinal de fraqueza. E porque?
Porque somos “filhos” do marketing e fraqueza não vende! Nunca foi um bom comercial. Ja viram comerciais de bebida mostrando alguém com cirrose?
O problema que não somos produtos, mas passamos a nos apresentar como tais. Expondo qualidades para que os outros “comprem” essa ideia. Mesmo que muitas vezes, nos violentemos no processo.
Consequência? Dores reprimidas, vozes sufocadas e “quebrados” que embora nos façam únicos, preferimos esconder para atender a idealização de um molde perfeito! Molde que nem sabemos quem instituiu, idealizado para corpos e pensamentos, que nem cabemos.
Essa omissão vem nos custando caro. A sociedade entrou em colapso, como aquelas mesmas ruínas, que hoje ostentamos.
Quando tentar vier antes de ostentar, entenderemos que beleza é o conjunto de todas as partes e que basta uma letra para consertar a impEr-feição e a tornar uma feição ímpAr.
<Fernando Paz>

Dia-logo


Há conversas que mudam um dia
Faz hoje parecer sempre
Trocam retratos antigos
Confidências Interiores
Sendo só e simplesmente o que são
Afinidade da Sintonia
Sincronia da Conexão
O tempo passou e não o viu começar
E o que fica? Apenas o essencial
De um momento tão inteiro
Que divide as melhores partes
Em um livro que parece familiar
Apesar, da história, que ninguém leu


Livro-me


Você foi a poesia que eu esperava
As letras que me faltavam
Quando nenhuma frase estava no lugar
Nunca foi a autoria
Mas a fantasia
De quem entra em um livro (temporariamente)
Para do momento escapar
Sentir na pele
O que só a mente podia tocar
Até que o despertador tocasse
E fosse obrigado a acordar
Devolver o livro para estante
Por um breve instante
Respirar fundo e sozinho
Para recomeçar as obrigações
Obrigado pelas páginas lidas
Mas agora é com a vida que preciso lidar
Sem mais esperas
Ficar atrasado, me desespera
Não percebi o tempo passar
Não posso mais ler você
A realidade me chama
Chama que me queimou
Sua poesia me mudou
Agora, preciso mudar a poesia
E escrever a minha própria história

Cabanas




Nunca fui uma criança típica. Tímido, me atentava aos detalhes e desde cedo aprendi que liberdade era imaginação. Aquilo que não encontrava fora, criava com intensidade dentro de mim. Alguns chamariam de fantasia, mas se eu sentia era real, então escolhi chamar de arte. Arte que se manifestou cedo com um simples lençol.
Amarrava as pontas nas chaves que ficavam penduradas nas portas dos cantos do armário, esticava as extremidades e “voilà” tinha inventado uma cabana. Cabana que cabia e improvisava meu pequeno mundo, rico de histórias que eu inventava e que nunca couberam nos limites do meu quarto.
Agora, arquiteto, me vejo novamente levantando cabanas, não mais com um lençol, mas com madeira e tijolos e levando para dentro delas o mundo de cada um que, temporariamente, sou convidado a estar. Não apenas crianças, como eu fui, mas também para aquelas, como eu, que cresceram.
Nunca se tratou de amor a um ambiente, mas da admiração pela vida que habita em um e com todas as peculiaridades e sonhos que carrega e dá sentido a ele. Um ambiente sem vida são apenas paredes.
Um mundo “mágico”, hoje, materializado e partilhado, que conhecendo o outro e suas histórias me faz constantemente, repensar e escrever a minha própria.

Mono



Nunca gostei de monossílabos
Quando o outro recebe mais do que dá
Nunca gostei de monólogos
Quando o outro dá tanto que não recebe
Nunca gostei de som Mono
Pois só escutamos no Estéreo
E é quase estéril quem coloca mono em qualquer coisa que faz
Monopólio do Ego
Monotonia da repetição
De quem no lugar de um coração
Tem um monólito




segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Sexo sem compromisso


Sexo pode ser con-sensual
Ainda que uns queiram o “con” e outros só o “sensual”
Deveria ser conexão
Mas acaba ficando desconexo
Um sente, enquanto o outro goza
Parece gozado, mas o riso de um é a tristeza do outro
Que ansiava um abraço, enquanto o outro virava de lado
Melhor deixar de lado
Corpo é templo
Não se brinca em um
Pois ali vive o sagrado
Calma! Não é para sexo ser pesado
Quando se gosta tudo é leve
Nem é puritanismo
Mas viver o puro prazer
Chamado reciprocidade
Sacanagem? É se aproveitar de alguém
Cama e carma, se diferenciam por um R
R-espeito

Original?


Nas redes sociais, as coisas não são boas pelo que elas são, mas pelo que elas aparentam ser.

Logo, não basta um poema digno de uma Clarice qualquer, alguém dirá que é da Lispector, ainda que a mesma só se expressasse por prosa!
Erros gramaticais e linguagem informal? O que importa se quem assina é Shakespeare?
Reflexão cotidiana? Não, é um provérbio persa!
Autores vivos sendo mortos, enquanto os mortos são ressuscitados em estilos que nunca usaram.
Citações fora de contexto e tempo. O marketing da desinformação compartilhada.
Quem se importa com a verdade se parece belo? E beleza é popular.
Ainda que não conheça uma mentira “feia”, pois não convenceria ninguém.
Fake? Não!
Fei-ke dói.

Redação

 


“Quem perde dinheiro, perde um pouco
Quem perde amigos, perde muito
Quem perde a fé, perde tudo”
Lembro como se fosse hoje, que esse foi o tema da redação, quando eu fiz vestibular. Estranhamente, foi um tema que me senti muito à vontade escrevendo, sem aquele sofrimento típico de provas e obtive um bom resultado, o que me motivou a escrever mais desde então. Adoraria saber hoje, mais de 15 anos depois, o que pensava a respeito, mas o fato, que recebemos aquilo que precisamos e essa frase foi uma das que me seguiu por todo o percurso até aqui. Não apenas por ter feito parte de um momento de transição importante, mas pelo sentido da mesma. Até porque 15 anos depois, é inevitável que já tenha passado pelos 3 estágios.
Já perdi dinheiro, já fui roubado, já perdi emprego, já passei apertos, mas sempre corri atrás. Perder dinheiro é pouco, porque só depende da nossa capacidade de nos reinventar, de buscar e mesmo que tenha alguma baixa é sempre temporária. Coisas materiais são recuperáveis. Como diriam as avós: “os anéis vão, mas os dedos ficam”. E se os dedos ficam, trabalhe.
Já perdi amigos, que se afastaram por motivos diversos. Se perde muito, porque quando uma pessoa parte seja por escolha de caminhos ou por morte, leva consigo uma parte de nós. Uma voz, que se acostumou a ouvir, de repente, se cala. (Ainda que continue falando dentro de nós). Levam uma parte de nossas lembranças, de nossas emoções e significados, que só tinham sentido com a convivência.
A distância presencial deixa uma lacuna que não pode mais ser preenchida. Ainda que novas pessoas surjam e tragam consigo novos aprendizados, nunca nos esquecemos daqueles que em algum momento, mesmo breve, mudaram a nossa direção.
“Quem perde a fé, perde tudo.” Porque fé não é religião. Fé é o nosso conjunto de crenças pessoais. Desde o amor próprio (fé em si) à confiança (fé no outro). Na fé estão nossos valores, nossa conduta e muitas vezes, nossa história. Por isso, muitas pessoas misturam a religião com a própria identidade, tomando uma parte pelo todo, ainda que sejamos a união de todas as partes. Porque fé é a transcendência de existir.
Perder a fé é perder a si mesmo. Logo, não sobra nada.
Não precisamos perder para dar importância. Mas diante da perda ficamos com a lição aprendida de valorizarmos a estrada que percorremos e optarmos sempre por um novo caminho.