quarta-feira, 7 de junho de 2017

A estranha



"Quem é essa mulher?" - Pensava compulsivamente. Tentava um esforço imenso, revirando todos os escaninhos do seu
interior, mas nada. Para o desespero dele, ela não apenas olhava fixamente e sorria com uma certa intimidade, que antes
de ser receptiva, deixava-o ainda mais ansioso.
"Quem era ela? Colégio? Algum Curso? Atendente?" - Seu rosto era tão familiar, mas ainda assim, não trazia nele, nada que
o desse alguma dica do que deveria lembrar.
"Por favor, passa direto! Faz apenas um aceno!" - Refletia, quase como a prece de um pecador, cujo pecado é não lembrar, mas não adiantou,
ela se aproximou!
"E agora? O que devo dizer? Será que ela vai perceber que eu não sei quem ela é?"...
E assim começou um diálogo difícil:
- "Quanto tempo! Você não mudou nada!" - Disse ela sorrindo!
Por sua vez, deveria dizer que ela mudou muito, porque não conseguia lembrar. Mas se limitou a um constrangido:
"Sim, muito tempo, mas você está ótima".
- "Como vão as coisas com os seus pais?" - Continuou para seu desespero.
- "Eles estão bem!" - Será que deveria perguntar dos dela? E se tiverem morrido? Se ela for adotada? Não sabia quem era essa mulher), mas novamente, tentou uma tangente: "Sua família está bem?"
- "ah! Que bom perguntar deles, eles estão ótimos e morrem de saudade de você!"
Bem, não bastasse não lembrar dela, agora, sentia-se duplamente culpado, porque não lembrava de uma família inteira que tinha saudades dele.
- "E os relacionamentos?" - Inquiriu ela com segurança...
Será que ela não ia parar nunca? Como sustentar uma conversa com alguém que sabe quem é, quando pouco sabe dela?
- "Continuo solteiro, mas estou bem." Viu que usava uma aliança e emendou: "E seu marido?"
- "Ah estamos bem! Planejando aumentar a família em breve" - Sorriu despretensiosamente.
Acho que nunca foi tão religioso como naquele momento, porque rezava aos céus por uma salvação e acredite, os céus escutam....
"Maria, o que você está fazendo com este homem?" - Uma voz que parecia vir do além, interrompia àquele momento.
"Este é o Bruno, meu amigo de infância, que não via há anos" - Ela respondeu, olhando na direção do inquisidor.
- "Mas peraí, eu não me chamo Bruno. Sou o Paulo!" - Repentinamente, sua voz interior falou, quebrando àquele momento.
- "Como assim Paulo, Bruno? Você sempre brincalhão!" - Ela parecia não acreditar e seu marido (julgava ele), estava completamente perdido na situação.
- "Sim, Paulo, advogado, solteiro e morador de Laranjeiras". Disse, voltando à respirar...
- "Sério, que você não é o Bruno?" - ela parecia incrédula e só faltou pedir um beliscão para acordar, mas não o fez felizmente.
- "Infelizmente, sim! Sinto muito!" - disse ele, numa tentativa de consolar o desencontro..
- "Mas porque você continuou o diálogo, se não me conhecia?" - O tom dela havia mudado, parecia desconfiada e logo, se segurou no braço do marido,
clamando proteção.
- "Porque a achei familiar, poderia ser alguém que eu não estivesse lembrando. Mas desejo felicidades à vocês e ao Bruno, se de fato o encontrar" - Virou e
saiu andando, enquanto ao fundo, ouvia esposa e marido se estranhando por um estranho.
"Ainda bem que minha memória não está tão ruim assim." - Afirmou, enquanto caminhava, sentindo como se houvesse passado em uma difícil prova. Riu sozinho.

domingo, 4 de junho de 2017

Monges contemporâneos


Sempre quando pensamos em monges, pensamos na clausura e renúncias de um monastério. Mas quantas prisões existem do lado de fora dos portões? Vou além, quantos corpos são monastérios com almas aprisionadas dentro deles?
O monastério protege o monge das tentações do mundo, no entanto, estar vivo é uma tentação e não há nada que possamos fazer para nos proteger de nós mesmos. Certo, podemos meditar, mas a meditação nada mais é do que a compreensão que todo processo começa e termina dentro de nós e em si mesmo.
Somos nossa própria ilha e isolamento. Uma ilha impenetrável por maior abertura e transparência que tentemos passar.
Podemos apontar uma direção do que somos, mas ninguém poderá entrar em nós e se deparar com toda a complexidade e contradições que nos habita. Podemos simplificar e resumir, ainda que não exista síntese que consiga a proeza de fazer de uma parte o todo.
Viver é uma renúncia, desde do nascimento, que abandonamos o útero até a morte, que abandonamos o corpo, que também é o nosso templo.
Que não esperemos a morte para abrir as nossas portas. Que cada passo possa ser dado de peito aberto. Não é o exterior que nos corrompe, antes o que trazemos dentro de nós.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Sustentabilidade emocional


Nunca se falou tanto em sustentabilidade, no entanto, como podem os homens resolverem problemas fora de si, sem entender os que existem dentro?
Ainda pensamos a natureza como uma realidade exterior, sem nos sentirmos parte da mesma ou mesmo como parte de nós. Mas a insustentabilidade do mundo, começa justamente pela insustentabilidade interior da natureza humana. Nos preocupamos com as gerações futuras e o que temos legado à elas há séculos? Pensamentos conturbados, sensibilidades omitidas, instabilidades...Exploramos os recursos interiores sem dar nada para o meio que somos convidados a estar. Não é isso, o desmatamento? Desmatamos idéias e sentimentos com o mesmo vigor. Poluímos os 70% de água que nosso corpo é constituído com mágoas, amarguras, etc...Rios e mares são apenas um espelho narcísico!
Somos formados de energias que alimentam o funcionamento da usina cérebro e mantém unidos os átomos que somos constituídos... E quanto desperdiçamos com atitudes sem propósito, criando dificuldades e guerreando contra o mundo? Sempre precisando de muito para o pouco que nos dispomos a dar.
Mudanças serão efetivas, quando o ser humano, mais do que cuidar do meio que vive, começar a pensar como ele vive no meio.
Como se dá e recebe, como usa os recursos que a vida oferece... Especialmente, entender que somos uma inteligência coletiva, na qual tudo está integrado. Que nada que fazemos é ação isolada, mas tudo terá reflexos à curto ou longo prazo. Não estamos lutando pela sobrevivência dos relacionamentos em um futuro, mas por viver plenamente no presente! O mundo que vivemos é o mundo que guardamos dentro de nós.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O valor de um relacionamento


É estranho colocar na mesma frase: "valor" e "relacionamento". Uma vez, que um é baseado na materialidade racional e outro, na subjetividade emocional. Mas em um momento, que o mercado financeiro/ consumo, é mais presente do que nunca na vida das pessoas, cabe uma tentativa de aproximar, senão em significado, mas em metáforas que façam um paralelo entre os dois mundos.
É um fato, que o sujeito não pode ser mensurado e logo, atribuir um valor à ele. Ainda assim, em nenhum momento perdemos essa balança que pesa as pessoas, rememorando o Deus egípcio Anubis, que pesava corações e só liberava a passagem para a morte, se este fosse mais leve que uma pena.
E se aprofundando nesses pesos e medidas imaginários, chegamos à famosa lei do comércio: "Oferta e procura". Não estou mercantilizando às relações, mas ainda baseamos muito do que sentimos pela disposição de alguém se ofertar ou pela procura que recebemos. Hipo e hiper valorizando expectativas.
E assim, os sentimentos então entram numa relação financeira de mercado. Quando as ações caem, qualquer um adquire por um baixo risco. Mas se as ações sobem, não apenas o risco aumenta, mas apenas quem realmente é capaz de investir, adquire. Ainda assim, ações em alta, lucros maiores, ações em baixa, lucros menores.
E assim fazemos de acordo com nossa autoestima. Nos doando de graça e sem risco à qualquer oportunidade por pior que seja, quando a estima cai e selecionando bem quem entra, quando a autoestima sobe. As vezes, investimos demais em algo imprevisível e nos deparamos com a quebra da bolsa e de nossos corações também!
É certo que ninguém pode comprar ou vender uma emoção, mas a forma como a projetamos no mundo, acaba por criar um valor imaginário. Mesmo valor imaginário, que um dia atribuiu importância à uma moeda.
A importância que damos as coisas, sejam materiais ou emocionais, atribui o valor que elas tem (ou que julgamos ter). Não aposte seu coração (Curiosamente, um eletrocardiograma é muito parecido com os gráficos da bolsa de valores). Não faça investimentos loucos que possam lhe tirar tudo que tem. E nem seja, prudente demais, para que o que tem de mais valor, fique estagnado. Sempre voltamos à balança e com ela, a necessidade de equilíbrio.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O clipes e seu papel



Na vida, somos como clipes dobrados e enrijecidos em um papel que escolhemos segurar.

O clipes brilha, mas misturado com outros, parecem todos iguais. Jogue-o em uma palha e descobrirá que para separar um "clipes" do palheiro, basta se guiar pelo seu reflexo.

O clipes pode ser deformado. Sua natureza é sua composição e não a forma que tem! Um clipes reto abre fechaduras! E como eles, somos assim também! Maleáveis, quando nos permitimos ser.

O clipes pode ser leve para flutuar sobre a água ou pesado e afundar à qualquer turbulência. Tudo é o jeito e a intenção que damos a ele. E você boia ou afunda?  Boiar é conseguir um novo ar e recuperar as forças. Para afundar, basta não fazer nada.

Tudo que nos cerca, espelha o que somos! A rotina nos leva a olhar para cada objeto com a mesma visão todos os dias. Permitam-se quebrá-la. Mudem a ordem, o sentido e os significados. E perceberão que escolhem os seus papéis. E de repente, dê um "clique", digo "clipes" na sua mente e tudo passe a rodar de forma diferente da que acostumaram a olhar.

A nudez das palavras


Revela o corpo das letras
Nos detalhes ocultos
Nos contornos das linhas
E suas intenções


São os versos não lidos
Sentidos e provocados
Sensações evocadas
Sensualidade das ações

É preciso despir a entrega
No íntimo pensamento
Que se dá para quem recebe
Que cede e excede

A leitura é conexão
Entre escrita e leitor
No sexo de duas mentes
Cujo encontro etéreo
É o prazer dos laços
Nos lençóis da imaginação

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Acaso




Não nos encontramos ao acaso
Nos reconhecemos, e isso, é um caso
Não há esbarrão, nem desatino
Tudo é necessidade e destino
Aprendemos pela dor incompreendida
Ensinamos pelo amor apreendido
Porque tudo é troca
Mesmo quando se faz troça
Quando errar
Basta Berrar (e recomeçar)!

Não nos encontramos por acaso
As vezes, o acaso nos encontra
Você julga planejar
Mas o julgamento planeja você
Você faz de tudo para aceitar
E a não aceitação faz tudo contra você
Você tenta conter o sentir
Mas o sentimento não contém você
Você tenta dizer FIM
Mas para a razão, tudo é SIM
E quando entende que é NÃO
Já não importa o valor que DÃO

Não nos encontramos ao acaso
Mas enquanto ele não chega, olhe o ocaso
Tudo tem começo, só você que não
Já existia, antes de viver
Tudo tem um fim, só você que não
Existirá, mesmo  depois de morrer
Não é o acaso, que nos encontra
Somos nós que nos encontramos no acaso

domingo, 28 de maio de 2017

O palhaço


É a ofensa à normalidade imposta
É a tristeza mascarada de riso
Que faz chorar de alegria
É o desprendimento da criança
Que brinca de ser séria
É o meter o nariz vermelho
Onde não é chamado
Pois não precisa de convite para ser
Quem é
É a encarnação da espontaneidade
Perdida na vida
É o papel marginalizado
Que só é assumido na intimidade
É o avesso, o inverso
É a paixão imersa
É o gargalhar de si mesmo
Que ecoa em outros rostos
É a arte de acreditar
E fazer de todo lugar
O seu próprio palco

Sentido de escrever


Não escrevo para transformar o mundo
Escrevo sobre o mundo que me transforma
Não escrevo para ser lido
Escreverei mesmo sem o ser
Minhas linhas são companhias
Quando companhias estão fora de linha
As palavras não cabem em mim
Mesmo que eu não caiba nas palavras
Escrevo o que não falo
Falo o que não escrevo
Minha poesia me dá a mão
Quando a mão carece de poesia
Me oferta um novo olhar
Para um olhar barato em oferta
Ela me salva de mim
Do eu que não pode ser salvo
Porque ela é a morte
Que faz renascer
Ela é a tristeza
Que precede o sorriso
Ela é juiz
Sem sentença
Ela é afeto
Para quem se deixa afetar
É passo para quem não tem medo
E medo para quem não quer dar um passo
É a entrega, uma trégua
Que rega o melhor
No melhor que podemos regar

domingo, 21 de maio de 2017

Sorrisos



Se os olhos são as janelas da alma
Sorrisos são as molduras
Enquadram e convidam
Brindam a vida
Desenham a boca
E vibram
É o melhor eco
Que de um só riso
Se multiplica
É conjunto
Melhor juntos
É reflexo e flexão
É o encanto
Que canta
Com o canto do lábio
Que sente
Consente
Conciso
Demais é gargalhada
Menos é palhaçada
De se levar a sério
Dois são encontros
Que contam a permanência
Um no outro
Sorriso
É só isso..
O todo que ri!