terça-feira, 26 de maio de 2020

Não sei amar

Nunca soube o que é amar.
Ainda que tenha dedicado maior parte da minha vida ao amor. Mas como se ama sozinho? Expandindo o peito de tal jeito que nem você caiba dentro de si. Você dá tudo, porque não tem nada. E ainda assim, o que sobra? Amor. Porque amor tem reserva infinita. Ele lhe reserva o infinito, por mais finito que pareça o seu ser. Ele vive, mesmo quando você morre.
Ele pulsa, mesmo quando não há mais pulso. É impulso e ele lhe expulsa do lugar comum que você julga estar. Amar não é comum. Porque é um sentimento que não se pode imitar. Ele é único para cada um do modo que se recebe e dá. Nunca soube amar, mas penso que amor não espera que ninguém saiba, pois quando quer, ele mesmo ensina.

Contar


Há quem conte seguidores.
Há quem conte o extrato bancário.
Há quem conte o número de vítimas de um momento.
Há quem conte os dias preso em casa pela impossibilidade de sair.
Mas porque você não conta para mim:
Quem é você de verdade?
Quantas vezes caiu? Ou tudo que realizou?
Quantas vezes olhou o céu? Ou simplesmente dormiu?
Quantas vezes recomeçou? Ou só disse que iria mudar?
Quantas vezes contou a mesma história? Descobriu um novo talento?
Quantos defeitos você tem? E as suas qualidades?
A vida não é um roteiro perfeito escrito por um coach.
A vida é o que você escreve diariamente e na maioria do tempo, sem ninguém ver.
Estar consigo, não é estar só, mas descobrir uma infinidade de universos que nunca conseguirá contar.

Augustiado

Arte mal-dita
Que não expressa
O que tenho pressa em dizer
Destino selado
De quem vive nas células
A própria cela
Cadeia perpétua de genes
Quando, por vezes, nem é gente
Extraindo de si o que salva
Na esperança de ser salvo também
Alvo longínquo
De um colóquio entre minhas partes
Tão partidas
Que partem antes de alcançar
Ao cansar de tentativas
Só. Expectativas
De quem espera viver
Mas dorme

Amor em fases

O amor na infância
É apenas um sonho
De duas crianças
Que queriam crescer
É preciso ter o coração grande
Porque amar não cabe em sentimentos pequenos
O amor na adolescência
É a mais bela aventura e rebeldia
De duas almas que tem pressa
De se afirmarem juntas no mundo que descobrem
Dispostas a lutar apenas para se reconhecerem um no outro
Porque amar é superar os próprios limites e descobrir a melhor versão
O amor na vida adulta
É decisão compromissada
De duas histórias já escritas
Que se encontram para mudar o roteiro
Cansados dos números (além dos a mais na idade): dias trabalhados e contas no fim do mês
Perdem a conta das horas juntos enquanto caminham na mesma direção
São partes tão inteiras que quase parecem metades
Porque o amor divide o muito que tem
E multiplica aquilo que sente
E não ha nada mais responsável que escolher amar
O amor na maturidade
Tem os cabelos brancos como a paz
Não pelos movimentos lentos
Mas porque aprendeu a apreciar os momentos
É a volta ao início
De quem apesar da aparente fragilidade
Tem os sentimentos mais fortes
E não se importa mais com o tempo
Mas com a perda de tempo de não se importar
Amar é repouso de quem faz casa no coração
O amor se confunde com a vida
Porque é preciso amor para viver
E embora nenhum amor se perca com a morte
Uma vida sem amor é pior do que morrer

Eles/Elas que lutem



Amor na fase adulta é uma guerra armada. Ambos feridos, sobreviventes de histórias e carregando seus fantasmas. Dois corações murados e na defensiva tentando encontrar um no outro uma brecha, uma paz,...
Mas algo que começa animado, vira um campo minado.
E embora ambos queiram que vá para frente, sempre há um pé atrás. Esperando o melhor do outro, enquanto esconde o seu melhor. Querendo viver algo inteiro, mas escolhendo apenas a metade. O problema de metades é que sempre falta um lado e logo, também se sente de lado. Reaviva machucados até que estar só pareça melhor que acompanhado. Se cercar de muros é seguro, ainda que não veja a paisagem ao redor. “Eles/elas que lutem” é enfim uma batalha perdida, de quem se rende, mas ainda assim, morre pelo amor.

Vácuo



Vácuo não é aquilo que o universo está cheio
Mas aquilo que lhe deixa vazio
Fora de órbita
É pergunta sem resposta
Frase sem conclusão
É espera indeterminada
Ou simplesmente ficar na mão
É viagem sem despedida
Ou silêncio que dentro grita
Vácuo é assim
Sem sim ou não
Só um talvez (sem vez)
Até que você canse
E mande tudo para o espaço:
“Vá-cuo Deus”

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Lua


A imagem pode conter: céu, nuvem, oceano e atividades ao ar livre
Admirar a lua não é incomum. Mas em alguns, sua influência costuma ser mais forte que em outros. Beethoven e Chopin compuseram sonatas para o luar. Van Gogh celebrou o “céu estrelado” em uma tela. Shakespeare imortalizou o encontro apaixonado entre Romeu e Julieta em uma noite enluarada. Antigos rituais profanos e religiosos tinham a Lua como testemunha. Porque? Se a lua afeta as marés e pessoas emocionais são puramente água, logo a lua influencia diretamente a sensibilidade. Quem assim sente não sabe dizer o que sente. Tenta justificar momentos noturnos de melancolia ou profundas reflexões como algo pessoal. Quando coincidentemente suas mudanças seguem o mesmo ritmo dos ciclos da lua: minguante (fim dos ciclos), crescente (inspiração e cultivo), cheia (plenitude e emoções a flor da pele), nova (recomeço). A Antiguidade sempre olhou o céu para entender a Terra. A modernidade tampou o céu apegados a Terra. O fato de não ver, não anula a existência. Sentimento é a única antena capaz de captar esse mundo que não vemos. Mas se você se perde olhando para a Lua e nunca entendeu o porquê, esteja certo que ela também olha de volta. A Lua é o olhar sagrado na fechadura da noite.

Insinuação


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Sempre achei estranhas algumas fotos de redes sociais...Porque os casais que estão se conhecendo não tem rosto?
Só dois copos de vinho em uma mesa? Só as mãos dadas? Citações sobre o amor, insinuando viver um, mas ao mesmo tempo sem querer que ninguém saiba?
Parece contraditório. Hoje, o outro segura a câmera, mas não aparece na foto. “Melhor ver se vai dar certo”. Deixar nas entrelinhas, diminui o risco de queda.
Mas porque anunciar metade? Não seria melhor esperar virar um inteiro? Ninguém mais pode esperar.
Lembro de amigos idosos contarem a emoção que sentiam quando depois de meses seguravam as mãos de suas pretendidas. Sem alardes. Tudo era lento e foto era um luxo. Registro mesmo era memória. Um segredo lentamente degustado. A espera era tão grande que o instante se eternizava. A paixão foi cultivada por tanto tempo, que quando juntavam, estava pronta. Amor para toda vida (pelo menos para alguns deles).
Hoje, tudo já vem pronto. Até o momento parece “fabricado” para caber em um stories. Se der errado? Pelo menos valeu a postagem.

Extremos

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas
Nunca estive no meio. E embora gostasse das pontes que ligam os extremos, vivi de um lado para o outro. Movimento pendular ou seria perambular? Nunca gostei de ficar parado.
Não sou bipolar, mas devia estar na fila para ser e como sou distraído, tropecei e nasci “normal”, mas com a emoção polarizada.
Vivo plenamente uma fantasia e sofro com a mesma intensidade a realidade. Amei, muitas vezes, sozinho a ponto de me preencher com meu próprio amor. Mas já estive acompanhado, me sentindo sozinho.
Tive deslumbres do paraíso e revelações quase celestiais,
mas trafeguei pela escuridão e conheci as dores que afligem quem passa por ela.
Já me achei, já me perdi. Já me parti e me costurei. Já fui tudo e o nada. E no meio? Só a sensibilidade tentando se equilibrar para evitar um naufrágio.
Anjos tem duas asas por simbolizar de um lado: o amor e do outro o conhecimento.E se mesmo a figura de uma perfeição tem dois lados, como posso caber em apenas um, sendo tão imperfeito?
Gosto dos extremos, mas não sou extremista. Não importa em que lado esteja, meus olhos sempre procuram o centro. E ainda que eu não consiga alcança-lo, ele sempre me mostra para onde devo ir.
Ironia que no centro do meu nome esteja a "Paz", mas me ajuda a lembrar a nunca esquecer o caminho.

Mundo em construção


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“Diante de uma parede branca com um ponto preto, as pessoas se fixarão no ponto preto, ao invés da parede.” Lembro quando li essa frase há muitos anos atrás, fui fortemente impactado por ela. Fixar em um detalhe e esquecer o contexto é uma característica humana.
Sou um grande entusiasta da mente humana e da evolução social, logo senti necessidade de falar sobre esse momento. E quando o presente não nos dá nenhuma resposta é bom olhar para o passado. Não por saudosismo, mas por aprendizado.
Toda mudança de eras da humanidade foi antecedida por um declínio. A Idade Média passou pelas guerras, fome e a peste. A medicina era quase inexistente, a tecnologia rudimentar, a sociedade não tinha liberdade de pensamento direcionada por um Rei e uma Igreja. E apesar de tudo isso, sobreviveu. Abrindo caminho para uma nova fase chamada “Renascimento”.
No Renascimento, houve uma reestruturação social, o saneamento básico e a arquitetura, como as artes, evoluíram. A sociedade evoluiu com a crise.
Durante a primeira e segunda guerras mundiais, houve muitas baixas. A ânsia de poder e por métodos de aniquilamento mais eficientes de um jeito torpe e a ascensão da “gripe espanhola” fez a tecnologia evoluir e especialmente, a medicina. Havia muitos a serem “curados”. A divisão do mundo em “nações” com o fim das guerras, deu lugar ao mundo como o conhecemos hoje: globalizado.
E apesar das mazelas e infortúnios, que ainda trazemos das nossas más heranças. Vivemos tempos bons até aqui. Quebramos nossas fronteiras e aproximamos distâncias. Evoluímos ainda mais a medicina, a tecnologia e a ordem social. E por mais, que sempre há quem diga que a humanidade não evoluiu nada, hoje, você pode ter o direito de dar sua opinião sem passar por uma tortura ou ser enviado(a) para a guilhotina.
Logo, tudo que estamos vivendo com essa epidemia não é novo. Mas como todos os períodos com seus prós e contras, nos acostumamos a ter tudo nas mãos. Algo positivo por um lado, pois encurtou o tempo, mas por outro, esquecemos de dar as mãos. Transformamos as relações em um produto e como tal, descartável.
Uma pessoa, hoje, sozinha tem tanto poder ao alcance dos dedos, que esse momento denunciou o egoísmo latente social. Viajar hoje é tão fácil que ninguém mais para. Olhar para dentro? O negócio é exposição.
E porque digo tudo isso? Porque por mais traumático que seja o instante que vivemos, ele surge para mudar o que não está funcionando. Chegamos ao fim de uma era: 2020. E esse é o nosso declínio, antes de um recomeço.
A epidemia surge como um processo catalizador. Nos faz repensar a estrutura social através do isolamento. Na busca por uma cura, a medicina fará novas descobertas. E pela urgência de descobertas, a tecnologia como um todo evolui junto. As relações de trabalho burocrático se mostram ineficientes, quando todos (com exceção dos serviços essenciais) precisam trabalhar de casa.
A divisão excludente de opiniões por qualquer coisa, só pelo direito de ter uma opinião, se unifica em um consenso, o “bem maior”: precisamos sair desse momento. As pessoas são obrigadas a ficar consigo mesmas e a conviver com os mais próximos, que no dia dia mantinham uma relação de conveniência.
E nisso, fazemos a transição para uma nova geração. Há sempre quem dirá: “Quando tudo passar, voltará a ser como antes. Não vê o egoísmo nos supermercados e farmácias?”
Mas eu digo: nada mais será como antes. A sociedade nunca será uma massa homogênea, somos compostos de diversidades e precisamos da “contrariedade” para efetivar mudanças. E diante delas, até o mais apegado aos seus costumes é obrigado a repensá-los.
Acha que muitos não relutaram para usar a internet? Achavam que era apenas uma “modinha” e que não afetaria em nada a vida cotidiana. Alguém se imagina hoje sem internet? Até os idosos aversos à novas tecnologias, aderiram. Não dá para lutar contra a praticidade.
Logo, afaste o pessimismo. Deixe-se contagiar pela gentileza, pelo amor próprio e ao próximo. Cure-se das suas dores e dos seus traumas. Imunize-se de ressentimentos e mágoas. Trabalhe sua mente e expanda seus sentimentos. Descubra o que realmente gosta e quem realmente você é. Reinvente-se de dentro para fora.
Sobreviveremos mais uma vez, mas o mundo que conhece, não será mais o mesmo. Que você não seja também.