domingo, 17 de fevereiro de 2019

Desencontros


A palavra cujo sentido distorceu.
E o silêncio quando precisava de uma palavra.
A ação que demorou e poderia ter mudado um momento.
E o impulso que mudou tudo de vez.
A pessoa que poderia ter amado se não estivesse com o coração machucado.
E as vezes, que amou quem estava com os sentimentos em outro lugar.
Aquilo que não percebeu por estar distraído
E toda atenção que depositou em uma ilusão.
O evento que não foi e todos elogiaram
E aquele que seria melhor não ter ido.
Desencontro é o lapso de um instante que se despede de quem você poderia ter sido se tivesse se encontrado antes.

Ovelha negra


Nunca vivi no cercado
Meu pasto era lama
Uma natureza desgarrada
O meu certo era errado
Minhas escolhas, duvidosas
Muitas perguntas, sem resposta
Uma direção sem chegada
De um caminho, fora da estrada
Sou sombra no escuro
Mas luz de quem não consegue enxergar
Fui contado por quem tinha insônia
Mas nunca existi para quem sonhava
Sem rebanho
Vivo em pele de lobo
Abduzido em campo fechado
Por ter um coração aberto (demais)
Ovelha perdida
Velha mania
Valha o desatino
De ser destino
Em uma música sem refrão

Desvio


É estranho ser viagem
E nunca estadia
Ser desvio na estrada
Chegar em vidas
E no outro dia, ser partida
Apegar para aprender a deixar ir
Ver os diálogos silenciarem
As presenças rarearem
A companhia espaçar
Até não poder mais dar um passo
Desconhecer conhecidos
Não mais ser seguido
(Nem em lembrança)
Ser útil como mala
Que carrega até chegar em casa
E depois, guarda
Em um armário empoeirado
Até que eu fique em dúvida
Se de fato, algum dia, existi
Ou fui mera conveniência
Insistência estranha de quem tenta
Um nó em uma corda que sempre
arrebenta
Mesmo que o resultado seja
Acabar só e partido

Confessionário


Não quero uma foto perfeita de Instagram
Quero saber o que você guarda aí e ninguém vê
Que traz no peito mesmo com o esforço de não parecer
(Mesmo quando perece)
Quero conhecer a sua história
Não a que foi postada
Mas aquela que fala baixo para ninguém ouvir
Me conta, por favor?
Não quero a bandeira no topo da montanha
Mas todas as cicatrizes que ganhou enquanto escalava
Não quero sua normalidade com mil curtidas
Mas a loucura que apagou antes que alguém lesse
Ou o surto que deu quando saiu de casa
Suas fantasias mais despudoradas
As noites de insônia ou mal dormidas
E todas as vezes que sonhou
(Mesmo o sonho que não "rolou")
Os amores vividos, os amores feridos
E as vezes, que disse que não viveria mais nenhum
Me conta seus segredos?
Me diz o que é sagrado?
E todas as vezes que profanou?
Não quero um resumo
Quero o sumo de tudo que traz
Me deixa ler?
Sem filtro, sem corte
Só assim
Só um sim
Eu e você

Seu beijo


Era colorido
Em uma edição “noir”
Arco-íris 
Para o fim das tempestades
Era quase fantasia..
Despertava príncipe
Em quem nasceu sapo
Moeda lançada em uma fonte
Pedido jamais confessado
Era aceleração do coração
E câmera lenta para nunca terminar
Era desejo e devoção
Uma ansia de viver
Só para renascer em seus braços
Era ponta de balé
Para lhe alcançar
Parada antes da volta em uma passarela
Da sua boca que na mente
Não passa
Passaporte de ida
Para uma viagem sem volta

É a vida


Deu errado
Não aconteceu
Desistiu
E em um suspiro fundo diz:
“É a vida”
Vida não é o resultado, mas o processo
É saber que o sangue corre nas veias
E que amanhã tudo pode mudar
É ser capaz de sonhar, apesar de...
É chorar também para poder rir em seguida!
É perder, ganhar e porque não empatar? Não é uma competição com linha de chegada.
Não tem pódio e nem troféu. E é “cada” vida! Não tem como comparar. Aliás comparar é o primeiro passo para cair! Pois tira uma frase de um contexto e assume parte como o todo!
Deu errado?
Comece de novo
Não aconteceu ?
Escolha outro caminho
Desistiu?
Não há pecado nisso. Tente outro jeito.
A vida é sua! É a vida que você escolhe sentir! E do jeito que prefere conta-la. O livro é seu e tudo isso “é a vida”.

Tratamento (Desenho e Crônica - Fernando Paz)


Sempre me incomodou essa expressão "tratar uma mulher". Tratar parece um acordo ou quando alguém está doente e precisa de cura. Mulher não precisa ser tratada, isso é coisa de tratante (ou seria trator?).
Mulher deve ser admirada, respeitada e isso não precisa de um (con)trato especial. Pois quando se gosta, se assina com a alma! Talvez tato e sensibilidade para perceber que no contato é você que é tratado, sendo muito melhor com ela, por ela e também por você. Gentileza não tem sexo e nem precisa de um jeito diferente para A ou B. É educação de quem se coloca antes no lugar do outro.
Quem distingue jeito pelo sexo de quem fala: disfarça, é farsa.. De quem de profundo só tem a superfície. É um poço sem fundo (e sem empatia).
Trato é diferença e interesse, que espera algo em troca. Mas cuidar não é um negócio, é quem descobre antes que doação ATA, doação é ATO!
Isso sim é um fato. Convivência é espontaneidade de quem não calcula cada passo e entrega somente aquilo que sente.
Mulher, como qualquer pessoa, precisa ser valorizada e reconhecida. Não precisa ser tratada! E se assim acha, é você que precisa de tratamento.

O beijo que não aconteceu



Carlos Drummond: Se de todas as minhas vidas, pudesse ser o grande momento ideal. Viveria todas elas só para caber no breve instante de lhe beijar. Poderia? 

Clarice Lispector: Se beijo fosse pedido, só caberia resignação. Quem pergunta antes se pode beber o veneno que emudece? Renda-se sem entendimento, beijar com limites não é desejar.

Carlos Drummond: Mas eu lhe gosto e você me gosta desde tempos imemoriais! Por respeito à todos os beijos não dados, pergunto! Mas certo que se não o fizermos, morreremos no tempo. Primeiro nas linhas e depois nas palavras. 

(Silêncio)

Clarice Lispector: Ah Carlos! O tempo para mim é agora. Eternidade é instante, já que em um ano vivi todos os séculos de minha intensidade. Sou exagerada, louca e só me satisfaço assim! Preciso do sonho estéril e acordado de uma mocinha de 15 anos.

Carlos Drummond: Mas devemos ter cuidado com portas cerradas. Como saber se não está assim? Poderia esbarrar no que não buscava: escuridão! E nessa tentativa de amar apressadamente, descuidosos, tropeçarmos no que não queríamos saber. 

Clarice, impaciente, vira de costas e acende um cigarro, enquanto Drummond se senta, agora, voltado para o mar.

Comédia e Drama


É estranho separarmos a vida entre lágrimas e risos. As pessoas mais bem humoradas que conheci eram depressivas. E as novelas mexicanas são tão dramáticas que parecem piada. Extremos vivem dos seus exageros e talvez por eles, se pareçam. Tristeza e Alegria são os dois lados da mesma moeda e como “profetizou” Khalil Gibran: “O mesmo poço de onde sai o vosso riso esteve muitas vezes cheio de lágrimas.”
Não pode ser diferente. Assim como na natureza um riacho modela as pedras por onde passa, são nossas lágrimas que esculpem o sorriso e quando sorri, o universo inteiro se comove. E é o que nos move! Nos faz andar com duas pernas e não pular em uma só. Esse é o palco da vida, que brinca com nossas emoções.
Que faz que surja um arco-íris com toda sua cor entre nuvens acinzentadas e pesadas.
Transformando desilusão em esperança e quebrando sonhos em realidade.
Tudo é o olhar sobre a história ou como decide conta-la. Aprender a rir de si mesmo é libertador, alivia das pressões e cobranças de um mundo que se leva muito a sério. Mas não há crime algum em chorar, quem assume suas lágrimas, está sempre pronto para mergulhar.
Ria e chore, só não seja indiferente para não se ferir. Porque quem não se dá, também não recebe tudo que é capaz de sentir. E só sentindo podemos dar significado. É o sentido que nos faz ficar em algum lugar. Se é um circo ou um velório? Você é sua própria plateia! Gargalhando até perder o ar ou morto por não poder mais respirar! Tudo é uma questão de ar! Que ar você quer dar? Vai focar no ralado da queda ou no jeito torto que caiu? Não importa a porta que escolha, comédia ou drama, se escolha ou se recolha! Porque mesmo que ninguém veja, o palco de dentro é todo seu!

Mãe e o DNA da culpa (Desenho e crônica - Fernando Paz)




Desde a origem do mundo, a mulher é injustiçada. E tudo começa com a "bendita" maça do conhecimento, uma cobra e a Eva. 
A mulher teve a primeira escolha consciente da humanidade e levou a culpa pelos três? O homem deveria estar olhando a própria cobra e como era sonso, fingiu que não era com ele. Ainda assim, no fim, todos foram expulsos do paraíso.
A mulher além de levar a culpa, ainda foi punida duramente a carregar o peso do mundo no ventre, e embora, não seja comercial do Polishop, cabe um "e ainda" sentir uma dor dilacerante no parto. O homem só sentiu vergonha da nudez (embora muitos, tenham se tornado sem vergonha assim mesmo). Assim nasce a origem do DNA da culpa que toda mãe carrega.
A mãe trabalha, se cuida, cuida dos seus filhos, dos filhos das outras mães quando estão ocupadas (e estão sempre, afinal, já viu mulher parada?), cuida da casa, do marido, que muitas vezes, é quase outro filho (quando não é pai e mãe), educa e poderia passar o dia falando de todas as funções (essa superou até o Polishop) e apesar de fazerem mais do que qualquer mortal em sã consciência seria capaz, o que sentem? Culpa! Culpa porque acham sempre que estão faltando em alguma coisa com os filhos. Ainda assim, como anjos que são, reconhecem o paraíso, naquele rostinho todo sujo de quem acabou de se jogar na terra com a roupa recém lavada!
Ah mãe é assim, estão tão a frente do seu tempo, em um futuro tão distante para preparar os caminhos dos filhos, que antecipam uma frustração pelo que imaginam de antemão que faltaram. E onde estão os pais? 
Não vou ser injusto com todos (porque o meu foi uma mãe. Aliás mãe deveria ser um grande elogio), mas "alguns muitos" ainda estão olhando a própria cobra e esperando serem expulsos do paraíso outra vez.
Atrasou 10 minutos para buscar na escola? Culpa! "Meu filho nunca vai se recuperar desse trauma"
Não conseguiu antecipar uma queda após uma grande peraltice dos filhos? Culpa! "Como pude ser tão distraída?"
Precisou trabalhar sem parar para que o filho pudesse estudar, comer e se desenvolver? Culpa! "Como posso ser tão ausente?"
E assim é o DNA da mãe: para cada ponta de paraíso pelas realizações dos seus filhos, ha uma corda de culpa por trás! Se responsabilizando, como na origem do mundo, além dela pelos outros. Porque a natureza da mulher é empática e altruísta. Ser mãe (embora eu não possa ser), imagino que seja o mais próximo da divindade que existe. Você ser capaz de gerar uma "alma" e ser destinada a orienta-la. Há sem dúvida, responsabilidade em toda criação (como nesse momento, me responsabilizo pelas minhas palavras, que de certa forma, são como filhas), mas eis um grande mistério: toda criação tem um fator único e que se desenvolve independente do tanto que tente influenciar. Você pode modelar, direcionar, apontar,... Mas nunca será capaz de passar pelo caminho que a natureza única de um filho formará. O filho veio de você, mas não é seu. E esse destino, você não pode controlar. Culpa? Não! A natureza ensina a voar, mas faz parte do voo aprender a cair!
Se você é mãe, tire essa palavra "culpa" do vocabulário. Só de existir como mãe para alguém, você já muda o sentido dessa vida. Até entre presidiários a palavra mãe é sagrada! Ou seja, por maior erro que possam ter cometido,
sabem que todo "certo" estava na mãe que não ouviram ou não tiveram.
Então, você já está certa, mesmo quando pensa errar! E se nada disso bastar, para ressignificar essa sombra que persegue o seu caminho...Vou contar um segredo:
"Deus não expulsou a Eva pelo pecado, mas porque o mundo precisava de uma Mãe!"