domingo, 20 de novembro de 2016
A forja
Somos filhos duplamente do amor: entre corpos recebemos a matéria e do êxtase do universo, a alma é criada e existimos.
Sendo forjado deste fogo, como poderíamos negar esta natureza? Tudo que não amamos, vira dor.
O amor tudo compreende, mesmo sem nenhuma palavra. Porque ele não precisa ser racionalizado, apenas sentido. E é um sentimento íntimo e intransferível. Como uma expressão artística que cada um vê e manifesta de forma única, como um estilo ou assinatura particular.
Há quem diante do sofrimento, diga: "Não amarei mais ninguém". De fato, pode-se negar alguém, mas nunca a si mesmo(a). Não manifestar, não anulará o sentir, pois ainda que não viva para amar, amará para viver.
Amor é a força mais intrínseca que possuímos, através dele nos reconhecemos divinos. Assim como criados, passamos a posição de co-criadores, seja nas relações ou ao gerarmos uma nova vida.
Aprendendo a amar UM, exercitamos o amar TODOS. Porque todos estão em UM e UM está em todos
Clonagem
Os clones caminharam lado a lado de mãos dadas. Um pouco constrangidos, olhavam um para o outro de soslaio, admirando suas semelhanças. Esboçaram falar e as palavras saíram ao mesmo tempo, numa sincronia surpreendente.
Sentaram em uma mesa antes ocupada. Ela em um esforço grande, deitou a cabeça no ombro dele e ele ansioso, balançou a perna, desequilibrando-a e derramando sobre ele um copo parcialmente usado.
Passada a falta de jeito que comprovava serem um o espelho do outro, ele perguntou:
- Se hipoteticamente a amasse, seria um amor narcísico?
- E ela respondeu: Acredito que não, porque embora criada de você, sou uma parte nova da sua natureza, que desconhece. Mas e se eu o fizesse? Seria reflexo dos sentimentos que sempre existiram em você?
- Também acho que não - continuou ele - pois embora tenha herdado as coisas que sinto, acredito que a forma como as manifeste é único como toda arte, que assume diferentes formas de acordo com quem as vê.
Coraram... Não tinham muita habilidade nesta área que descobriam juntos e nisso eram exatamente iguais. Levantaram desconcertados e querendo sair do embaraço, pensaram em seguir o caminho.
Mas novamente pensaram ao mesmo tempo e na mesma direção. Se esbarraram e arrepiaram. A energia magnética que une criador e criatura.
E sem entender ou tentar explicar o porquê se beijaram. Se amariam, embora no íntimo achassem que se amaram desde que eram parte um do outro. Naquele instante juntos, clonaram o amor.
O ser ou só ser?
Quanta solidão há no mundo...
Tão próximas e quase sem serem vistas...
No amigo que sorri ao seu lado, mas disfarça e sofre em silêncio...
No colega de profissão que trabalha incessantemente tentando esquecer seus vazios...
No parente que falta as reuniões familiares por não ser compreendido pelas suas opções de vida....
Das pessoas que encontra no dia a dia sem desconfiar que por trás de toda naturalidade, carregam histórias e dores profundas...
Amores perdidos, amizades desfeitas, mortes, partidas, falta de perdão ou incompreensão...
O que cada um guarda e aguarda, só o ser saberá dizer...
Mas observe um olhar ou um jeito, antes de julgar...
Agradeça, ame, aceite, perdoe e dê à alguém a oportunidade de ser visto e falar...
Através do outro nos vemos refletidos e sem ele nos estranhamos por não conseguir enxergar...
O que e como somos de acordo com a situação que criamos ou deixamos passar...
Amor Sombrio
Uma homenagem aos poetas ultra-românticos (mal do século)
Uma lágrima de escuridão percorria e nela me afogava.
A vista enevoada, a voz calada em soluços, enquanto aguardava a morte, era amado pela vida.
Na ânsia que percorre as veias, sou escravo e prisioneiro seu.
Vejo a liberdade na janela de seus olhos, enquanto açoitado pela sua indiferença.
No rompante de tocar seu corpo, mas me enlaçar com sua sombra.
O seu melhor é o meu pior castigo.
Enquanto o partilha com outros, mendigo e rastejo as migalhas que deixa cair.
Lúgubre dor manifesto de um paraíso distante e ideal...
Mas é na paixão infernal que sinto, que me aterro, enterro e encerro aqui
Revelações
Escrevi meu amor em silêncio
Mas ele não se conteve e falou
Eu em pé na beira do abismo
E só percebi quando ele ecoou
As palavras voaram
Perdi o controle
E pelo espaço multiplicaram
Ajoelhei e corei
Ainda tentei segurá-las
E quanto mais as via afastando
Mais revelava o que queria esconder
Um sentimento entregue e despido
Chorei pela paixão liberta
E me virei quase partindo
Quando com as esperanças dispersas
Vi você linda chegando
O livro da vida
Sou o livro vivo escrito a cada dia
Minhas histórias nunca são as mesmas
Se metamorfoseiam de acordo com quem lê e de como sou lido
Minha capa nunca me revela, apenas convida
Minhas linhas são sinuosas e mudam a cada nova leitura
Profanando a casta rotina
Delineando a realidade que há na fantasia
Desafiando o senso comum
Desatinando a normalidade
No meu universo, tudo é entrega e intensidade
Emoções que transbordam a cada página
Muitas delas, em branco
Aguardando serem escritas
As vezes, deixando escorrer algumas lágrimas
Em outras, rindo até perder o ar
Se quer me conhecer, não tenha medo, me descubra
Só há um problema...Meus versos não tem fim.
A ponte
Separados por um rio, pela falta de um riso
Duas partes de uma margem, um aparte da imagem
Uma ponte que as liga, como o destino que não desliga
Uma cidade de cada lado, um cuidado ( embora distante) colado
Vidas sincronizadas, sonhos preconizados
Uma separação ilusória, duas almas que buscam casório
Um atravessar constante da rotina que não cessa até que a sorte passe e acesse o sonho que existe entre eu e você.
Cansaço
Cansado...
De mendigar atenção
De oferecer minha alma por um mero sorriso
De falar quando recebo silêncio
De dar minha melhor parte por uma amostra da sua
De doar meus sonhos
Para quem deles nunca fiz parte
De tentar fazer que me enxergue
Quando seus olhos por mim transpassam
De esmolar carinho
Quando só o vento me toca
De sentir tudo
Por você e eu
Desta ilusão
Construída como areia
Que quando seguro se desfaz
E que qualquer onda leva
De me importar
Sendo esquecido
E só ser lembrado
Quando já não me importa
Da solidão
Solitária ou à dois
Que bebe sem saciar
Esta sede de amar
De escrever...
De falar sobre os mesmos porquês
De tentar entender este abismo
Que me jogo e me faz renascer
Há cansaço...
O que acontece?
Só me leva embora
De um destino que não faz falta
De mendigar atenção
De oferecer minha alma por um mero sorriso
De falar quando recebo silêncio
De dar minha melhor parte por uma amostra da sua
De doar meus sonhos
Para quem deles nunca fiz parte
De tentar fazer que me enxergue
Quando seus olhos por mim transpassam
De esmolar carinho
Quando só o vento me toca
De sentir tudo
Por você e eu
Desta ilusão
Construída como areia
Que quando seguro se desfaz
E que qualquer onda leva
De me importar
Sendo esquecido
E só ser lembrado
Quando já não me importa
Da solidão
Solitária ou à dois
Que bebe sem saciar
Esta sede de amar
De escrever...
De falar sobre os mesmos porquês
De tentar entender este abismo
Que me jogo e me faz renascer
Há cansaço...
O que acontece?
Só me leva embora
De um destino que não faz falta
Bi (ciclos)
Tentei fugir da tristeza de bicicleta
A cada giro das rodas era uma parte da vida que deixava pelo caminho
Pedalava com as forças que me faltavam sem nenhuma direção
Encarava a solidão, me integrando as paisagens e pessoas desconhecidas que passavam
Me sentia perdido, mas quanto mais longe ia, mais perto chegava de meu interior
Cada suor que escorria era uma gota de libertação
Abria os braços, largando o guidom, perdendo o controle e me deixando ser conduzido....
Acariciado pelo vento, esquecia o tempo e me reencontrava com minha alma, agora, imortal.
Desfragmentação
Tentei me apagar
Mas fui escrito com caneta
Deslizei a borracha quase até rasgar
Passei corretivo, mas fiquei transparente do avesso
Me rasurei, mas uma marca denunciava permanentemente minha existência
Removi o pedaço, mas ainda sem ele, no lixo permanecia
Então incinerei, mas as cinzas perpetuavam
Assim, soprei e ao invés de sumir, em mil partículas de pó, me multipliquei
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