quarta-feira, 15 de março de 2017

Nostalgia


A nostalgia é uma brisa que invade a mente, removendo os lençóis da memória.
É a lembrança revisitada, que restaura as cores, hoje perdidas, no tecido desbotado e embolorado.
É o perfume que reconstrói um lugar, reposiciona os móveis, materializa objetos descartados e aproxima pessoas, há muito, distantes.
É quando o presente redescobre o passado, emprestando à ele suas próprias tintas, fazendo assim uma releitura dos fatos.
Nada é preciso, mas há uma magia na imprecisão. Há um direito de autoria outorgado apenas a quem viveu a história. (Ainda que nos apropriemos de muitas, uma vez que as ouvimos e queremos levar adiante)
Nostalgia não é saudade, ainda que caminhe de mãos dadas com ela. É a viagem, o processo, a reconstituição de uma parte que existe, embora silenciada em nós.
Mas é indomável, não aceita nossas vontades e nos leva a encarar as mudanças. Tudo mudou, ainda quando as coisas permanecem no mesmo lugar
A casa não era tão grande, nossos corpos eram pequenos diante dela. As proporções mudaram, mas o sentimento não. Aquele cheiro ou gosto não era o melhor do mundo, mas a vida ainda não tinha nos apresentado nenhum melhor. E o futuro era distante demais para imaginar tudo que cada instante se transformaria.
A nostalgia são as raízes, o ninho e o ventre. É o canto dentro de nós conhecido e que nos dá segurança.
O retorno necessário para ajustar os parâmetros e seguir adiante!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Toque


Toque é comunicação
Dois corpos que conversam em silêncio
É a expressão contida
Manifesta na vibração da pele
É a liberdade em braile
Que ofertamos pela proximidade
É conexão ou repulsão
De quem doa ou cede
É a variação emocional
Exercida pela pressão dos dedos
Toque não tem retoque
É a primeira impressão
Quando a alma diz ao outro em segredo:
Fica aqui ou não volte mais!

domingo, 12 de março de 2017

Corpo


Corpo não é pecado
É a arte que modela a alma

Corpo não é violação
É a doação e altruísmo de existir para um outro olhar

Corpo não é assédio
Mas a casa que escolhemos quem pode entrar

Corpo não pode ser agredido
Pois é nossa antena das sensações do mundo

Corpo é a vida em movimento, o tempo em transformação...
Não é adorno, mas também não é condenação...

Não vivemos para o corpo, mas o corpo vive por nós


sexta-feira, 10 de março de 2017

Portas Fechadas


Parecia a casa perfeita. Tudo tão florido. Queriam entrar. Tentavam espiar através das janelas, mas nada viam. Tentaram as portas, mas estavam fechadas. Deveriam ir embora, mas insistiam sem resultado. Sentaram e esperaram algum sinal do interior, sem retorno. Mas porque ficavam, quando tudo dizia que deveriam ir?
Porque insistimos em situações fechadas? Será o desafio? A idealização? A fantasia de crer que ali dentro reside a esperança do que não encontramos fora?
Quaisquer que sejam os motivos, sem abertura, nunca será uma entrada suave. Ou será uma invasão, posteriormente denunciada, ou mais tarde, seremos obrigados a nos retirar.
Nada que não seja espontâneo e livre, permanece. Porque como casas, não adianta forçarmos. Ainda que fossemos aceitos, sem convite, seríamos sempre estranhos. E é necessário aceitar isso, se queremos ser acolhidos.
Toque a campainha com calma, ninguém atendeu? Não insista. Siga adiante....Em algum lugar, alguém abrirá suas portas e convidará para tomar um café.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Carta às mulheres


Hoje, no Dia Internacional das mulheres, resolvi falar sobre os Homens. Sim, você leu bem, os Homens. E não falarei das peculiaridades que as mulheres vem lutando contra há tanto tempo: machismo, segregação, assédio, desigualdade... Por mais que sejam grandes chagas, é um ponto que, felizmente, tem sido discutido amplamente e , cada vez, com mais frequência. Ainda que, o que quero falar, ajude a levantar novas questões sobre essas causas. Também não estou aqui para exaltar características masculinas, no dia que deve ser uma Ode à mulher. Então o que faço aqui?
Falarei das pressões sofridas pelos homens quando tangenciam o universo feminino. Não estou falando de "orientações sexuais", mas de pontos comuns, que também sofrem preconceito e , muitas vezes, pelas próprias mulheres.
Hoje o Dia Internacional da mulher é uma relevante conquista e luta feminina pela igualdade dos direitos civis, sua inserção social e liderança. E assim como as mulheres desafiaram um senso comum enraizado no patriarcado, é hora de dar voz a um outro lado dos homens, reprimido pelo mesmo patriarcado.
"Homens não choram", "Homem sensível é gay", "Homem é razão, mulher é emoção", "homem não pode ser fraco", "homem precisa ter pegada"..ditos populares repetidos à exaustão ...E esses homens, entre os quais me incluo, não encontram nenhuma voz, que se junte a eles na defesa de quem são. Enquanto se luta arduamente pelo que o homem NÃO deve ser, pouco se fala, sobre o que ele PODE ser.
Sim, eu choro. Me sensibilizo pelo mundo que vivo. Minha emoção e razão frequentemente se conflitam. Sou inseguro e não escondo minhas fragilidades. Admiro as coisas belas e delicadas. Penso que gentileza e ser educado não tem sexo.
Falo em primeira pessoa, mas não estou ditando norma de conduta, cada um é senhor(a) de si, mas quero dizer com tudo isso, que não deixo de ser menos homem por isso. E espero ser aceito pelo que sou, sem precisar omitir, disfarçar ou ser taxado como "estranho".
Se nesse momento todos buscam a integração social, sejam mulheres, LGBTs, negros e afins.. ser homem, hetero e sensível também precisa ser abraçado nessa luta, se esperamos efetivamente uma sociedade justa e que integra todos os fatores.
Quanto mais homens falarem abertamente do que sentem, quanto mais mulheres não os julgarem por isso e os apoiarem assim, mas próximo de um real equilíbrio estaremos. Mais ajustados a nos aceitarmos, uns aos outros, exatamente como somos.
No dia das mulheres, falo de homem para mulher. De sensibilidade para sensibilidade. Aceitem homens diferentes e poderão enfim encontrar o mundo diferente que buscam!

terça-feira, 7 de março de 2017

Amores condicionados


Amor, nunca deveria ser acompanhado de um porém. "Amo você, mas...." Quando acontece assim, nunca é inteiro, livre e disposto. Nunca é futuro ou sonho, quando muito, é um presente, que vivemos dia a dia, tentando nos equilibrar para não cair na realidade de medos e incertezas.
Normalmente, amores condicionados nascem de paixões intensas. Paixões que nos cegam a tal ponto que aceitamos qualquer situação desde que fiquemos juntos.
Exatamente como uma droga, que um instante de prazer, nos exija a repetição contínua para não perdermos aquela sensação do momento. E como uma, afeta nossa percepção, altera nossa consciência, nos dá abstinência...
Na brevidade da lucidez, nos sentimos vazios e sozinhos, logo retornando ao ciclo vicioso para negar e anular o fato.
O condicionamento é uma ilusão que tenta se encaixar em uma história na qual nunca coube.
Que esmola uma parte pela fome de um todo. Chega a se violentar por um pouco de esperança. Mente para defender o que quer acreditar: "é amor". Mas que amor é esse que sobrevive ao invés de viver?
Pode ser qualquer tipo de amor, mas certamente ignora o mais importante deles, o amor próprio. Cuida do outro, mas não dá atenção a si. Se ausenta de si mesmo, quando qualquer relação saudável precisa dos dois presentes.
Amores que não podem ser sem senões, também não podem ser felizes.Quando dois querem, um não se perde...


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A arte da folia



                    Todo ano, o Carnaval acontece e nunca é igual. Não pelas fantasias. Falo dos exorcismos de ser o que a rotina esconde. Ironicamente, é uma época de máscaras, ainda que prefiramos despir não somente nossos corpos, mas as almas também.
                    Uma loucura dionisíaca, com um toque de Afrodite, ao romper as correntes da realidade. Pular sem pressa, contrariando os passos acelerados e duros do dia a dia. Ouvir o batuque em sintonia com o coração, que o trânsito e as buzinas silenciam.
                     Tradição e história se perpetuam no inconsciente coletivo. Momento de não se levar a sério e aprender a rir dos próprios defeitos. Passe livre para a entrega e a vivência desperta dos sonhos. Dançar em chuva de confetes, libertar o cantor de chuveiro interior, rodar mais do que a rotação da Terra e se cair, sacudir o pó e levantar de novo.
                      Alguém dirá: “É a festa da carne e o templo da luxúria”. Mas não seria o corpo, um personagem que assumimos? Haverá excessos! São inevitáveis como toda represa que se rompe, transborda.
                      Não é mais ser ou não ser, é ser tudo! Não existem incertezas, tudo é certo! Nem desculpas e culpas! E se tem alguma dúvida, vá atrás de um trio elétrico, afinal "só não vai, quem já morreu".
                      E num piscar de olhos, tudo será passado. Só restarão as cinzas da rotina, que aguardarão o renascer da Fênix em um novo ano, para abrir as asas de plumas e lantejoulas e alçar voo!


Ponta de faca


Até que ponto é válido insistirmos em algum ideal?
Sempre escutei este dito popular: "Dar murro em ponta de faca". Achava chocante a idéia, embora muito elucidativa.
Pois acredito que aí esteja a resposta para este limite...Até onde devemos lutar?
Quando uma busca, se torna ferida... Então é dado o alerta! A dor normalmente nos avisa que estamos saindo da estrada,
como um termômetro.Nem sempre o melhor caminho é o que imaginamos ou queremos fazer.
E porque insistimos?
Muitas vezes, a desistência é vista como um sinal de fracasso. Especialmente, quando consideramos que o que queremos é
o melhor para nós e é um fato "inegociável", ainda que o resultado disso, consecutivamente, seja sofrimento. Fracasso é a apatia diante de uma queda. Mudanças são processos naturais... A natureza constantemente se transforma...
De todas as virtudes de "ser humano", estou certo que a maior delas é a nossa capacidade de adaptação e flexibilidade
diante das mais diversas situações. Ajustar a escala de nossos desejos à realidade apresentada é a melhor forma
de equilíbrio entre sonhos e riscos ou entre seguir e saber o momento de parar.
Assim evitamos fincar a faca em nossa mão e a utilizamos para cortar as raízes de apegos a fantasias...

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Partida


Porque não me deixou ir?
Só para lhe ver partir?
Levou consigo a minha parte
E o que faço com o que sobrou?
Sombreou...
Não disse oi e nem adeus
Apenas foi, antes de todos os meus eus
Breu...
E eu aqui com quase nada
Cada um em seu lado
Calado...
Cadê minha lua? Também a levou
A noite virou, o sonho voou
Vou...
Não a vejo mais...
Perto ou longe demais...
Mas...
Se é partida, eu sou chegada
Você pássaro, eu revoada..
(Re)volta...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um conto de fatos


Em algum lugar de distante reinado, havia um camponês. Não tinha muitas posses e vivia em um casebre bem afastado do movimentado burgo protegido pelas altas muralhas dos castelos do Senhor Feudal. A casa, feita de taipa, era longe das estradas principais, onde mercadores transitavam. Vivia com seus pais de quem cuidava e raramente recebia visitas.
Cultivava o próprio sustento em uma rotina que se repetia dia após dia. Nada acontecia ali, naquele lugar, que parecia esquecido por Deus. Até que um dia, enquanto arava as terras, uma mulher maltrapilha, visivelmente ferida, veio correndo em sua direção. Balbuciava algumas palavras sem sentido, mas mal se aproximou dele e desmaiou em seus braços. Por um momento, ele não sabia o que fazer, mas logo a colocou no colo e a levou para dentro da sua humilde casa. Alojou-a em uma cama de palha.
Mesmo inconsciente, ela parecia atormentada. Em alguns momentos, em profundo delírio gritava: "me deixem em paz! Parem de me seguir!". Ele se assustava, mas jamais desampararia alguém que precisava de ajuda. Sentou ao seu lado na cama, apoiou sua cabeça ainda adormecida sobre o colo e levou uma concha de um caldo a sua boca na tentativa que se alimentasse. Ela ingeriu sem saber o que fazia. Cuidou de suas feridas, umedecendo trapos e as limpando, posteriormente, enrolando outros novos em torno da pele para proteger a região. Muitos dias, se passaram.
Ela não mostrava sinais de reação, mas ele insistia. Mesmo sem saber, havia se afeiçoado àquela estranha desconhecida. Até que um dia, ao abrir as janelas pela manhã, um tímido raio de sol repousou sobre a face dela e seus olhos, piscando e lutando, se abriram. Tentou levantar bruscamente, mas ainda estava fraca e sentiu dores. Ele correu até ela, pedindo calma e tentou explicar como tudo se sucedeu até então.
Um pouco mais recomposta, ela olhou ao redor. Tudo era muito simples, mas cuidado com amor, se sentia bem ali. Olhava o homem e ele parecia um tanto rude, não era bonito, meio atrapalhado e, visivelmente, pouco experiente em conversar com estranhos. Ainda assim, ela sentia uma grande verdade nele, quase inocente, algo que não via há muito tempo. Pensou em revelar sua identidade, mas achou que não deveria preocupá-lo. Preferiu dizer que estava com amnésia e logo, não lembrava de nada antes daquele momento. Passou a viver como aquela família e pela primeira vez, se sentia parte de alguma coisa. Cozinhava, limpava, ajudava no campo, atividades que nunca fizeram parte da sua realidade. Quanto mais o tempo passava, mais diferente via aquele homem. Nunca a exigiu nada, não fazia perguntas sobre o passado e não cobrava nada. Apenas a aceitava do jeito que ela podia ser. Respeitava-a como mulher, ainda que tenha o flagrado, algumas vezes, olhando discretamente em sua direção. Começou a pensar com frequência naqueles olhos que diziam tanto e passou a vê-lo com novo interesse. Seus olhos passaram a se esbarrar e ele sempre constrangido, tentava disfarçar. Até que um dia, enquanto cuidavam da horta, suas mãos se encontraram sob a terra e suas bocas, involuntariamente, se procuraram. Foram breves minutos que pareceram o dia inteiro.
No mesmo instante, barulhos de carruagem se aproximaram. Quebrando o momento e os colocando em estado de atenção. Nunca aparecia ninguém por ali. Ela sabia o que os esperavam, mas ele estava assustado, ainda que inutilmente, tentasse parecer calmo para dar segurança a ela. Cavaleiros com armadura e bandeira em riste, logo surgiram entre as árvores. Trompetes foram tocadas, anunciando ser um agrupamento real. Quando ela ouviu, o que não gostaria: "Princesa, finalmente a achamos". Ela olhou para ele em um misto de pesar e desculpas, beijou seu rosto sujo e sem dizer nada correu para os guardas, evitando assim uma maior aproximação entre os dois mundos.
Entrou correndo na carruagem e sem vacilar, mandou irem embora rapidamente. Os cavalos assumiram seus postos e todo o comboio se pôs em movimento retornando a estrada. Não ousou olhar pelas cortinas, embora aqueles olhos tristes e confusos a perseguissem. Mas como poderia fugir do seu destino? Era uma princesa e ele, um mero plebeu. A proximidade com ele poderia custar sua vida, uma vez que nunca aceitariam tal aliança. Viveriam fugindo? Sabia que estava destinada a outro a quem não amava. Lágrimas escorriam do seu rosto, enquanto voltava para seu claustro, foi um lindo sonho, que infelizmente, era obrigada a despertar.
Ele estava atordoado. Não entendia o que havia acontecido, enquanto via a comitiva real se afastando e sumindo no horizonte. Ela era uma princesa? E sabia disso o tempo todo? O que poderia querer com eles? Uma família tão simples! E porque aguardou tanto tempo, se poderia voltar a qualquer momento para uma vida muito mais confortável do que ele poderia oferecer a ela? Ainda assim, se sentia agradecido por tudo que havia sentido. E pelo privilégio de ter sido beijado por uma princesa, que o salvou de si mesmo, da sua monotonia e da sua vida de repetições. Já havia ouvido falar de contos de fadas, mas nunca se julgou apto a fazer parte de um, mas agora entendia, que sapos também podiam ter um lugar no mundo.