terça-feira, 11 de junho de 2019

Aparte


Já tive amigos imaginários
Amores platônicos
E almofadas de estimação
Já andei sem destino
Em busca de um caminho fora
Só para voltar para dentro de mim
andei sem destino
Tantas vezes dialoguei com o silêncio
Na espera de respostas
Que eu não sabia também
Já me abracei no vazio
Me dei a mão na agonia
E disse baixinho: “isso também vai passar”
Perdi a conta de quantos partiram
Sem despedida
E precisei esquecer para evitar a dor de lembrar
Me importei com desconhecidos
Que não sabiam que eu existia
Só para ter alguém para pensar
Quantas vezes cheguei atrasado
Em vidas que chegavam
Já prontas e sem um lugar
Não fui parte
Nem posse
Só passaporte
De todas as companhias
Reais ou inventadas
Assumi que de todas elas
Só eu não podia sumir

Tenho medo...


...de escuro
em meus pensamentos
O breu de ser Eu
...da altura
dos meus sonhos
O voo que não vou
...da morte
da minha esperança
O luto de não lutar
...de falar em público
o que não publico
Ser esquivo sem crivo
...de lugares fechados
em meus sentimentos
A fobia de me afobar
...das tempestades
Que eu crio
Trovões sem trovas
...da solidão
Que só, não sei lidar
Desvio sem via
Temo ser trema
Tremo sem tema
Medo
Me dói
- Fernando Paz -

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Queremos alguém


Que nos desentorte
Ou se enrole conosco
Seja norte
Quando estivermos perdidos
Mas abraço que sempre sabemos onde achar
Que dure
Mesmo nos dias duros
Nos guarde
Como aguardamos
Ainda que não seja sonho
Pois sobrevive ao acordar
Que nos dê corda
Ou faça cor em um dia
Seja impulso
Mas acelere nosso pulso
Que mude a vida
Mas não mude o encanto
Que seja o nosso melhor canto
Sem vergonha de assumir
E que não cogite sumir
Sem pudor a sós
Sem dor, nem deixe só
Só uma euforia gritada
De quem em silêncio
Guardou uma emoção sufocada
Para estar junto
E dizer que dali em diante
Não precisa de mais nada
Só amar demais

Crítica


Há tanta hostilidade
Frustrações despejadas
Generalizadas conclusões 
Ataques gratuitos
De almas feridas
Que por defesa, ferem
Antes mesmo de conhecer
A sua história basta
Um basta que justifica a ofensa
Hipocrisia de quem vive em crise
Aponta o dedo
Por não saber dar a mão
Destila fora
O que dentro está cheio
(Ódio)
Ainda que ódio seja o amor machucado
E por não saber amar, machuca

Amor na terceira idade


Amor não se vale em curvas
Pois quando se gosta, se ama até as dobras
Somos literalmente dobrados
Curvados em reverência
Amor não caduca
Pois também não esquece
A memória falha, mas o sentimento não
O amor pode enrugar, pode se enroscar
E não há nada de errado nisso
Não é uma questão de flacidez na pele
Mas de firmeza no coração
O amor pode ter cabelos brancos sim
As nuvens também são brancas
Quer representação melhor de paraíso?
Não importa se as mãos tremulam
Quando se ama realmente, as pernas também tremem
O amor não precisa de pressa
Pode ser lento e demorado
Afinal, quem não esperou uma vida inteira para chegar assim:
Tão longe e amado?
Amor não é mérito da juventude
Diria que amor é conquista da maturidade! Mérito de quem apesar das rugas e cicatrizes, nunca desistiu.

Seguir


Não é acompanhar a vida de alguém em redes sociais
Isso puxa para trás!
Mas direcionar a sua para frente
(Mesmo sem alguém)
É abrir mão de um passado que não pode mudar
Sem esquecer dos passos que deu até aqui
É assumir que o presente é o melhor lugar que pode estar
Sendo presente em suas decisões
Seja cisão! Rompa com o que não acresce
Cresça para tocar novos horizontes
Tenha confiança que intocável só existe no que desconhece
Fiança para a própria liberdade
De ser o que desejar
Abrir mão de fantasias
Dar as mãos para pequenas alegrias
Lembrando que mais um dia vai chegar
Não é o que pensa
Isso é teoria!
É o que sente
Pela dor saberá onde não deve estar!
É bater o pó da roupa
Renascer do próprio pó
Renegociar seus desejos
Para saldar a dívida da falta
Dar crédito para si mesmo
(As vezes, desconto também)
Nem toda conta é fácil de pagar
Desapegue! Isso conta muito!
Ame aquilo que acreditar
Descrença é falir sem tentar
Ria quando não puder mudar
Chore todos os rios, se assim desafogar
Doe o que não usa
Ou que dentro tem demais
É importante sempre esvaziar
O que está cheio, não recebe
(Mesmo que queira)
O que está vazio, aceita tudo
(Mesmo que não queira)
Não precisa chegar em um destino
Você é o seu destino
Não chegue la, se achegue aqui
Segue sempre
Se ergue sem pressa
Porque no fim atrai o afim
Pois quem afirma ser
Firma onde vai dar

domingo, 7 de abril de 2019

Você não conhece ninguém


Você pode deslumbrar pela fresta que as pessoas permitem que olhe, mas conhecer é muito difícil. Difícil porque a própria linguagem é complicada demais. Entre o cérebro e a boca, sempre há perda. Por mais integral que tente ser, dificilmente será capaz de materializar o mundo que traz dentro de si. Cheio de cores, de dores e histórias que só você conhece e dá sentido à tudo que você pensa sobre si mesmo(a). O que muitas vezes é injusto e parcial, porque também não nos conhecemos plenamente. Tanto que muitas vezes nos deixamos definir pelas experiências que passamos. E julgamos equivocadamente que aquilo é tudo que somos. Somos muito mais, nossa natureza é mutante e o eu que você revela hoje, não será mais amanhã. A essência permanece, as vezes, maquiada. Mas a personalidade que ali está, muda por novos valores ou descrenças no que não funcionou. Você não conhecer alguém não quer dizer que deva desconfiar de alguém, afinal o outro não a/o conhece também. Mas que sobretudo deve buscar se conhecer! Pois isso ampliará sua percepção e sensibilidade sobre o mundo que cerca. Antes de se surpreender com o desconhecido, seja sua própria surpresa! Se reapresentando ao espelho a cada manhã e se permitindo sair das suas fórmulas e conceitos pré estabelecidos. Ninguém conhece ninguém, mas que conheça bem a si mesmo(a). Será sua maior revelação.

Denúncia


Denúncia é hipocrisia
Falso moralismo
De quem esconde a nudez
Mas fode com o outro
Ou despeito de quem por falta de coragem
Tenta tirar a coragem de alguém
Uma natureza vil e sorrateira
De quem se ocupa com a vida alheia
Ao invés de cuidar da sua
Cara de Pau
De quem nunca dá sua cara a tapa
Denúncia não assina
Assassina a liberdade de muitos
Pelo prazer egoísta de um
Que com melindre do “gozo”,
Goza do outro em seu (mal) feito
Infelizmente, ainda não é possível denunciar falsidade
Mas quem age assim
A própria vida bloqueia

Dependência


Sou dependente emocional
Sinto sem moderação
Sendo tudo ou nada
Não sei ir ao paraíso sem passar pelo inferno
Nem rir muito, sem antes ter chorado
Sensibilidade aflorada
Que sempre enxerga no outro a flor
Mesmo quando em mim, crava o espinho
Não uso máscaras, porque me entrego inteiro
E acho deplorável quem use uma para fazer de sentimentos, uma piada
Não é engraçado sofrer
Ainda que o tempo nos ensine a rir de nós mesmos e isso é libertador
Perdemos tanto com a vida
Que aprendemos o valor da vitória sem um pódio
Ou descobrimos que toda queda também é um voo
Não escolhemos ser quem somos
Mas a cada renascimento, somos o melhor que podemos ser
Diferença solitária
Que nos ensina igualdade
De um peito pela dor transformado
Abstinência da indiferença
De quem descobre na doença (pathos), sua cura
E empatia cura

O que não vê


Não se prenda no que vê
Aprenda com o que não vê
Nos detalhes não revelados
De lados não confessados
Cicatrizes maquiadas
De histórias não contadas:
As lágrimas ocultadas
Com a cabeça, em um travesseiro, enterrada
Um murmurio de uma oração
Um sussurro no ouvido
Um quarto escuro
Um tremor escuso
Os olhos trancados
Os braços escancarados
O mordiscar atento dos lábios
O coração acelerado
Um riso inesperado e sozinho
As mãos de duas pessoas entrelaçadas
O silêncio constrangedor
O ranger de dentes
As pernas que ansiosas balançam
O estalar dos dedos que relaxa
O suspiro que agradece
O suor de uma apreensão
A contração da pele em um deleite
O grito contido
O frio na barriga
O brilho de uma descoberta
A vida acontece
Nos instantes não registrados
Como agora enquanto lê
Você, seus pensamentos e mais nada