domingo, 8 de setembro de 2019

Depressão


Não é cisco, nem cisma
É pressão interna e indício
Se não cuidar...
Suicídio
Suscita flagelação
Enquanto o sorriso disfarça
A farsa de quem sobrevive
Enquanto todos pensam que vive
É ferida sem cor, sem classe
E que não serve para status
É falta de tato, contato
Isolamento de quem lamenta
A lágrima que fez ilha
Rezando que passe o tormento
E só fique
Na mente, a paz

Vai voltar


Há quem espere tanto uma volta, que acabe em revolta! Quer um futuro que plagie o passado! Não o passado vivido, mas aquele que foi fantasiado e não aconteceu! Não é a/o ex namorado(a) de volta, mas os sonhos sufocados e uma parte nossa que não chegamos a conhecer. Não é saudade do antigo trabalho, mas a ilusão de imaginar que onde não se está é o melhor lugar. A volta vive do esquecimento do que levou ao fim. Se quiser que volte alguma coisa, que não seja um evento ou uma pessoa, mas a espontaneidade de ser quem você era antes de tudo que aconteceu! Que reprimiu a natureza ou fez que abandonasse seus sonhos! Que aprisionou suas vontades, escondeu seus interesses e lhe fez acreditar ser menos do que poderia ser. Não volte, voe! Retrovisor é cuidado, mas a direção é sempre em frente.

Romaria


Por muito tempo caminhei no escuro até que meus olhos se acostumassem a ele e minha cegueira conseguisse distinguir sombras. Não tive uma mão para sair dele e talvez fosse necessário ser assim. Precisava descobrir uma luz própria. Hoje, vaga-lume.
Por muito tempo fui imaterial, quase não tinha corpo, nem voz,... uma existência fantasma, mas que não atravessava paredes. Fui invisível, ainda que visse tudo. Era tão abstrato, que precisei do abstrato para existir. Virei arte. Emoldurada na parede. Minha falta de sentido, fez sentido para alguns que passavam, ressignificando a pessoa que, agora, via no espelho trincado.
Por muito tempo estive só em minha inabilidade social. Alguns traumas passados talvez possam perdoar minhas limitações. Um momento quebrado, me fragmentou. Queria estar perto, quando todos sentiam que deveriam ir. Queria presença, mas só conseguia partir. Me partir. Estreitando meus laços com a solidão. E a solidão é uma companheira possessiva e ciumenta. Você chama alguém e ela afasta. Você diz A e ela faz que entendam B. Você responde e ela faz que tenham dúvidas. Você abraça e ela empurra. Você pássaro e ela gaiola. Uma beleza piando para um mundo logo ali, trancado! Acesso negado!
Por muito tempo pensei, senti... tinha todo o tempo do mundo... cada segundo era uma eternidade. Não ter tempo é privilégio de quem tem distrações. Eu só tinha tração, me arrastava em minhas deficiências. Acreditando ser uma ciência! Formulava teorias, hipóteses e hipotenusas e como olhar de Medusa, acabava paralisado, petrificado. Ser rígido para quem olhava.
Hoje sou lido, ora aceso, ora apagado. Ora riso, ora enxurrada. Ora brando, ora pancada. Ora de pé e em outra ajoelhado. Rezando aos céus...rogando aos seus... compreensão.

Quando uma pessoa entra na sua vida?


Quando a trilha sonora que a marcou
Cria uma nova melodia na sua vida
Quando as estranhezas dela
Parecem tão normais quanto as suas
Quando lhe faz rir
Do que até aquele instante lhe fez chorar
Quando você não é intervalo
Mas série maratonada
Quando silêncios não afastam
Mas se afagam
Quando qualquer bobagem
Parece bagagem interessante!
Quando o tempo acelera
E o coração também
Quando qualquer detalhe que esqueceria
É uma desculpa para lembrar
Quando por mais que você fale
Palavras sempre parecem faltar
Quando se tira as máscaras
E as roupas também
Quando o sonho
Vence o medo de viver
Quando alguém entra na sua vida?
Quando não sabe mais dizer
Como seria ela
Sem você

Curtir e Amei


“Amei” é gostar muito?
Porque eu amo até publicidade!
Amor deveria ser propaganda
Patrocina a esperança e incentiva a confiança
Diz que é melhor até quando é mediano
Porque amor nunca é médio e nem meme, ainda que você sorria
Quem curte o que não ama é neutro ou prudente?
Porque gosto da imprudência de sentir tudo! E neutralidade? Nunca conheci quem ama com cautela...
Minto! Conheci, mas não era amor...
Talvez só um “curtir” ou seria curtição? Talvez porque “curtir” não tenha esforço, é só um toque, mas para um “amei” é preciso segurar: dentro do coração. Você ama ou curte? Porque eu curto amar!

Pai


Pai é homem que assume seu papel sem um ai
Que se importa e é importante
É lembrança, mas presença
Não é mero provedor, é amigo e educador
É parceiro da mãe (mesmo separado), porque entende que filho precisa das duas partes.
Pai é amor, não é papel que qualquer vento leva, nem um mero sobrenome. É laço, parto, é pranto e parte.
Divide o ventre que não tem no apoio a mulher e gesta dentro do coração um amor. Seu cordão umbilical está no pensamento. Não é sangue, mas alma!
Ri com cada passo e não deseja perder nenhum. É força (não física), mas fortaleza emocional. Pai não é só quem cria, é quem se recria! Que aprende com o filho e se torna melhor. É exemplo (ou se esforça para ser). Porto seguro na tarefa árdua de crescer. É segurança, sem medo. Não se impõe, pois escuta. Não obriga porque dá a mão. As vezes, os ombros para a criança sentar e ver o mundo do alto e aprender desde cedo que sonhar faz parte do caminho. Se um Pai cuidou do filho na cruz, ser pai, nunca é uma cruz para seu filho! Pai é quem abre o paraíso do peito e manifesta a divindade de criar uma vida (e cuidar dela).

Quando o lado sombrio me domina


Minha alma desarma
Em pleno campo minado
No escuro, não vejo pegadas
Não sei se é abismo ou atalho
Se afogo ou sou afago
Lágrima é doce ou salgada?
Não sei se minhas sobras tem eco
Ou se é tudo sombra do meu ego
Sem luz, somos iguais
Uma face plácida
Um disfarce plástico
Não sei se escuto ou sou escasso
Certamente, escuso
Faço caso
Natureza tão dramática
Que chega a ser engraçada
Arte estranha
Para mentes não tacanhas
E sem moderação
Quer que eu tenha modos?
Meu melhor modo é viver

Não seja


Não seja momento
Para quem não tem tempo
Passatempo?
Prefira estar só consigo mesma(o)
Ser sobra para quem não se importa?
Prefira abrir a porta
Para quem se porta! Não fere!
E põe as mãos à obra
Construindo em si
Estadia
Que muda todo um dia
Não seja intervalo
Para não ficar na vala
Melhor ter valor do que preço
Apreço rende! Não se renda
Emoção também gasta
Desgasta
Sem reciprocidade
Não há proximidade
Só uma ilusão desalmada
Uma espera inacabada
Que sempre recomeça
O que você quer terminar

Conexão


Conexão não tem nexo
É a simples simpatia
Que liga uma mente na outra
Em rede 3G: Graça, Gruda e Gosta
Não tem parâmetros, mas sintonia
E nem motivos, mas sincronia
De dois momentos que se acham
Em um mesmo instante
De duas pontas soltas
Que se amarram e se marcam
Mas nunca acaba
E que mesmo sem cabo
Pluga na saudade
Com jeito ou atrapalhado
Nunca ficam sem sinal
É comunicação
Mesmo sem palavras
Em que basta um olhar
Para um coração
Se enxergar no outro
E bater no mesmo ritmo

Par-tida


Hoje, você está aqui...
E amanhã?
Pelo mundo não desbravado
Escrevendo histórias inimagináveis
Com pessoas e lugares
Que nas suas melhores fantasias
Não pensou conhecer
Enquanto vejo seu retrato mudado
Seu jeito transformado
Até que uma nova forma
Faça-nos desconhecer
E Eu? Um instante de saudade
De um livro lido
Na estante da alma guardado
Em um momento partido
Enquanto caminhava perdida
Até que não mais estivesse perto
Nostalgia?
A lembrança é ovelha desgarrada
E não domesticada
Que costuma ir onde você não pode chegar
E só me resta espiá-la
Pular as cercas da vida
Até que o meu sono venha
E o sonho me leve para outro lugar