terça-feira, 13 de outubro de 2015

Um Wi-Fi, por favor!


A: Um wi-fi, por favor!
B: Não temos, mas o Sr. gostaria do cardápio?
A: Como assim não têm?
Que absurdo! Que estabelecimento é esse que não tem um wi-fi em
pleno 2015?
B: Senhor, servimos café!
A: Café? sem internet?
B: Mas temos café com outras opções! E o Sr. pode habilitar o seu 3G!
A: Quer dizer então, que está realmente me sugerindo que habilite meu 3G?
Quer que eu traga o pó de café também de casa?
B: Infelizmente não posso ajudar o Sr. É tudo que temos!
A: Ficar desconectado? Prefiro procurar outro lugar!

Se retira indignado do estabelecimento e logo, entra numa loja de peças íntimas..

A: Um wi-fi, por favor!
C: Sr. isso é uma loja de peças íntimas!
A: E tem lugar de maior conexão que a intimidade?
C: O Sr. está bem?
A: Acho que não, estou offline!
C: Calma Sr. respire fundo!
A: Você já pensou? Podem achar que fui sequestrado, que morri...
C: O Sr. gostaria de telefonar para alguém?
A: Telefonar? O que é isso?
C: Acho que o Sr. está um pouco confuso.

De fato estava, saiu atordoado, sentou no chão, escreveu num pedaço de papel
"Um Wi-fi, por favor" e ali aguardou que uma bondosa alma, o doasse um!

Enquanto a vida passa...



Abandono as fórmulas de verdades incertas
e paro de questionar certas dúvidas (certas)

Retiro as máscaras
E aceito minhas imperfeições

Rio de mim mesmo
E choro só com a beleza que comove

Reduzo o drama de partes
Amplio o inteiro da comédia

Constato a impermanência
e tenho certeza da permanente mutação

Desejo a liberdade de princípios maniqueistas
E entendo que entre dois extremos existe um longo caminho

Prevaleço a jovialidade da consciência 
Com ânsia de descoberta e entrega

Torno-me flexivel e maleável de idéias
Ainda que o corpo não mais espelhe isso

Entendo as dificuldades como oportunidades 
E as diferenças como complementos

Entrego-me ao prazer da simplicidade
E sintetizo a complexidade

Me doo com intensidade
E me dispo das ilusões

A vergonha e o medo não mais me obstam 
A vontade e transparência me realizam

Esqueço a prudência e a segurança
Sendo tudo que me permito ser

Paro de morrer durante a vida
E deixo que a vida me leve até a morte

Caixa de Entrada


Caixa de entrada é uma loteria
Entre milhares de e-mails cotidianos
Se aguarda apenas um que quebre a rotina
Que seja surpreeendente e inesperado

Nisso nasce o vício, como todo jogo
De abri-lo a cada segundo
No girar da roleta que determina a sorte
De esperar que o resultado traga uma mudança
(de preferência sem esforço)

E nas probabilidades do inconsciente
A menor parte indeniza a maior
Assim justificando a continuidade 
Deste perpétuo movimento

Enfim, chegou o momento
Há 4 novas mensagens
Um SPAM, uma conta paga,
uma notificação de trabalho e
um convite de aniversário

A 1ª vai para a lixeira
A 2ª guardada sem ser lida
A 3ª respondida com contrariedade
A 4ª é inovadora mas não idealizada

Uma frustração assoladora, 
Mas a próxima consulta é sempre a melhor

O êxtase




Corpos cálidos se esculpem enquanto pelo outro escorrem, 
Contorcem de prazer, sequiosos e lívidos de um pertencer
Nas mãos entrelaçadas, nos versos calados pelas bocas que tudo devoram
Emaranhados e lanhados, eriçados e preparados 
Reagem quando provocados e se lançam sobre o outro amado
Se apertam e amassam em um coro sussurrado e ofegante
No coração descompassado e os poros dilatados
Instintos que se provam e deliram
Como as mãos que minuciosas, tateiam a lira
No tato, quase insensato, que se perdendo, acha
Como faísca sobre palha, acende a chama que espalha
E num derradeiro suspiro, a mistura e a entrega do deleite
Derramam em fusão o êxtase em um instante de paraíso

O escritor e o papel


Aqui, deitado, na escuridão, olho para a folha em branco e nela encontro alguma luz. Uma companhia, quase diária, de alguém que mesmo não querendo, lentamente, se acostuma a ser só. Essa ilha branca, nos exige a solidão dos náufragos, que escrevem as páginas de sua sobrevivência. Ainda que não abracemos um papel, somos abraçados por ele.
Um pedaço pequeno e branco de sonhos, que mesmo com a limitação de linhas, dispostas como a grade de uma cela, é infinito e nos liberta da prisão do mundo, cujas correntes são invisíveis.
Nossa terapia e divã. Aqui nunca há silêncio e nem julgamento, desculpas ou arrependimento. Embora, neste espaço grafamos nossos gritos e denúncias, nossas loucuras e fantasias incendiárias, nosso pudor e a nudez da verdade, nossos medos e fantasmas, nosso riso e pranto, nossa razão e inconsciência....É o lençol de nossa alma e o portal da eternidade. Não precisamos dormir para partir, basta escrever. A vida aqui também não tem morte, aliás, se morre mais na vida. Quem escreve está além dos limites, como o Deus Hermes e seus pés alados (também temos uma pena nas mãos), trafegando entre mundos, submundos e Olimpos. Nossa relação escrita é como um transe e um êxtase mediúnico. Não escolhemos as palavras, elas nos escolhem.
Neste universo, que cabe em um verso, não há credo, gênero ou formatação. E assim como o papel se doa para ser escrito, nos doamos para escrever. E só sabemos que chegou ao fim, quando nos assemelhamos ao vazio daquela folha em branco que iniciamos. A lacuna que aguarda o recomeço.

Traição


Me perdoa, não pude evitar
Ainda que doa, melhor confessar
Eu a traí, mas não por falta de amor
Tentei atrair a calma da dor

Compensar quantas lacunas?
Ou o pesar de tantas desculpas
De só querer conversar com alguém
Se alguém quisesse conversar

Tentei me ocupar
Ousei me enganar
Num preencher vazio
De uma fome que não sacio

Mas no fim, são seus braços que me acolhem
Enfim, laços que não se escolhe
E assim, perpetua nossa relação
Minha doce e amada Solidão

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Doa-se um coração
Semi-novo
Com poucas avarias
Algumas fantasias
Mas que ainda pulsa com vigor

Tem bluetooth de empatia
Ritmado com MP3 interior
Entrada USB de sentimentos
E tem inteligência artificial
Pois independe da vontade do usuário

Equipado com WI-FI universal
Sincroniza-se com qualquer rede de sensibilidade
Grande capacidade de memória interna 
E milhares de mega pixels de arte 

Um design retraído
Apresenta uma ligeira falha de comunicação
Compensada por uma ânsia de expressão poética
Longa durabilidade da bateria
Com reserva adicional por luz lunar

Doa-se um coração
Por não servir-me mais
Mas certo de que atenderá
Quem de um carece

O jogo



Na roleta do destino
Não sabemos nossa posição
Será sorte ou desatino
Ou seremos um mero peão?

Entre a perda e o ganho
Um desejo quase insano
Um querer meio tacanho
Que arrisca ser profano

Apostar todas as fichas
Em um resultado aleatório
Aceitar quaisquer pechinchas
Onde tudo é provisório

E no término do jogo da vida
Nada é como se espera
Sem cuidado perdura a divida
E é a banca que prospera

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Fênix


Despida com asas em chamas
Despedida que narra o arder da flama

Como rompe o ninho
Corrompe o caminho

Que ascende ao céu da própria sorte
E se rende ao véu da morte

Nas cinzas que pelo espaço derrama
Precintas desfeitas dos laços que tudo ama

E da inexistência que semeia e ressurge
Da consciência que gorjeia e urge

Da decrepitude que padece
À juventude que se restabelece

Afeita, livre voa
Refeita o timbre ressoa

Até desaparecer no ar por uma fenda
E escrever em seu queimar a sua lenda

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Viagem


Com todos viajando
E ganhando o mundo
Vou para baixo do edredom
Me perder em um sono profundo

Talvez na Hungria, não vá lá
E nem conheça Havana
Mas chegue em Shangri-la,
Ou me reconheça no Nirvana

Embora passos sem chegada
Ou não cruzar o Atlântico
Vou me embora à Pasárgada
E imergirei junto a Atlântida

Talvez não veja Versailles
Ou o país de Gales
Mas respire só e simplesmente
Os jardins da Babilônia

Talvez não faça trilha no Morro do teleférico
Nem escute Sax no Tennessee
Mas tenha um deslumbre feérico
Dos mouros, saxões ou da história em si

Enquanto culturas são vistas
Me visto de culturas
E quando todos julgarem seu juízo
Talvez, finalmente, eu padeça no paraíso