quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Flertando com Madame


Madame estava só, sentada em um bistrô, admirando a vida noturna na Cidade das Luzes, mal iluminada no momento pelas luzes de postes, mas ainda assim, Paris. Nunca se importou de ter uma mesa só para si, desde que uma taça de vinho e uma boa música a fizessem companhia.

Mas não pôde deixar de notar aquele homem no balcão. Cabelos negros, como a graúna e olhos esverdeados e pidões. “Peça que eu dou” – Pensou consigo mesma, enquanto repentinamente, sentiu o ambiente esquentar e não era a vela, que tremulava a sua frente.
Senhora de si, estufou o peito, tanto que quase desabotoou a blusa que vestia, realçando o seu decote. Piscou para ele, no exato instante, que uma poeira decidiu pousar em seus olhos...

Mesmo tentando se controlar, a ardência levou a uma compulsiva piscadela. Seu mundo embaçou, como um quadro de Monet e lágrimas escorriam compulsoriamente, mais do que em seus momentos mais tristes.

Começou a agitar o ar com as mãos na vã tentativa de expulsar aquele corpo estranho, quando sentiu um solavanco em seu corpo. Dois braços fortes a comprimiam por trás, sufocavam seu diafragma, enquanto uma voz agoniada murmurava: “Senhora, expire fundo”. Não estava engasgada, mas tantos apertos a impediam de explicar. Ainda tentou bater na mesa, como um lutador, que implora o fim do combate, mas inutilmente.

Pareceu uma eternidade, mas quando enfim o terremoto passou, a nitidez retomou e conseguiu balbuciar em seu melhor francês: “Je suis bien”. Finalmente, observou que o homem do balcão não estava mais lá. Diante dela, apenas o garçom, seu pseudo-salvador, com o rosto mais transparente que sua taça. Constrangido, ele tentou se desculpar.
Mas Madame não podia aceitar tamanha impertinência. Resoluta e altiva, lhe disse sem vacilar: “A conta e você em meu quarto”. Saiu bamboleando, sem olhar para trás ou perder a pose. Suspirou intimamente: “Meu herói”.

Variações


Sou poesia do tipo que trova
Prova de quem faz uma prosa
Sou poema escrito sem crivo
Versos do meu inverso

Sou haikai, sem mais
Trinca sem métrica
Sou conto de encontros
Dos encantos que canto

Sou crônica, filho de Cronos
Sem ônus de quem brinca
Sou palavra
Minimalista.

Sou ensaio do corpo que saio
Da alma que pede calma
Sou dueto doado em duelo
De quem tudo que espera é elo

Sou soneto de um só
Dos muitos que em mim há
Uma carta, um porquê
Para quem ama o que lê


A arte da Vida (Homenagem ao Domingos Montagner)



As cortinas das águas do Rio S. Francisco se fecharam, encerrando aquele que seria seu maior papel...Entre lágrimas que se juntavam ao afluente à fluente correnteza que seguia sem perdão. O Velho Chico cansado, palco de antigo esplendor, hoje faz de seu leito morada para quem um dia quis ser grande ator. O rio que hoje guarda um riso, em seus bastidores ao público segredou, que mesmo na morte, há arte e o espetáculo só termina para quem em si não o vivenciou.
Suas lonas seguem o fluxo, o tempo nele não para, seu destino é certo, mesmo quando não sabemos para onde vai.
Dois palhaços juntos! Na misteriosa cumplicidade entre dor e alegria, que corrompe as expectativas, faz de um dia qualquer "Domingo" e brinca com a inocência e fragilidade da criança que dentro de nós morou.
E assim, um roteiro se eterniza em quem assiste à obra, mesmo sem compreendê-la. Algumas interpretações não são para serem entendidas, apenas devem ser sentidas. Eis a magia de se deixar surpreender....
E agora que as luzes apagam, a novela termina e com ela somos obrigados a deixar nosso apego aos personagens....todo fim de uma história deixa implícito o que irá acontecer. Convidando os expectadores a criarem com ela a obra que continua viva, como o Velho Chico, que entre duas margens, mesmo as vezes cansado, segue sempre em frente....

Não sou poeta


Sou tudo, mas poeta não posso ser
Poeta abstrai e só consigo descrever
Não sei a diferença entre poema e poesia
Salvo que ambos começam com Pó...
Peco nas pontuações, deslizo nas conjugações,...
Não crio um personagem...
Sou a minha própria obra..
Imperfeita, já feita e sem arranjos
Admiro quem versa, mas o que faço é conversa
Entre o eu que fui e o tropeço de mim
Na amizade imaginária entre minhas partes
Aquela que exponho à outra trancafiada
Não conheço os estilos, nem tenho um
Sou Frankstein literário e remendado
Juntando palavras perdidas de imagens esmaecidas
Em algum canto de mim, que não ouso contar
Não sou poeta, mas queria ser
Mas poeta é aquele que brinca, que brinda
E eu ainda procuro os "porquês"
Porque será que sou assim?
Tento me justificar
Mas no fim, algo de poeta em mim há
Porque poeta também não cala
E em tudo que fala está o seu amar

Minhas batidas


Aqui jazz o que sou
Novo nascer que soul
Com as cores blues
Sem chorinho
Ergo do pop
Como a fênix
Cena de Tv! Ou Mpb?
Cada gosto gospel meu
Cada pranto tango tanto
As vezes, rock e rolo
Não sou eletrônico
Sou vida que samba
Que cai e levanta
E no fim sem fim
Sigo a valsa 
Que há na bossa
Nova sempre nova

Cntrl + Alt + Love


Na selfie que nos faz
Conectados
Em Wi-fi...why fire?
Rede sem fios 
De toques finos
Sintonias Tácteis 
Emoção em nuvens
Drop a sua mente in box
Upload da sua paixão
Em nudes da alma
Corpo, cor em pó
Pixels Cibernéticos
Quase Poéticos
Sentimentos online
Alinhados 
Na webcam dos olhos
Candura virtual
Amor em bytes
By diário upgrade
Sem grade
Em que tudo
É mais real
Do que chamam
Vida real

(Re)forma



Poema
Pó e má linha
Da metapoesia
Meta a poesia
Deflore seus versos
Em flores abertas
Sem rimas ou linhas certas
Acerta na entrega
Erga uma trégua
Entre o que  espera
À pera que salvaria Adão
Perdão! Não descreva!
Escreva à tentação
Das velhas fórmulas
Das velhas mulas
Que carregam sem questionar
Não é mera expressão
Ou quimera da impressão
Sem pressão, tudo bem...
Vou mudar, mas não sou mudo
Talvez fale, falhe
Destilo um estilo
Mas vou tentar, tentado
A ser melhor do que o melhor
Que tenho sido




A platéia



Enquanto uma vida pulsa no palco, dando sentido e significado à um momento, muitas vidas se unem temporariamente dando dinamismo e assistência à cena. Como ventos, sem os quais, um barco não sairia do lugar.
Se a luz reside no tablado, as cadeiras margeiam na sombra. A luz projeta e personifica, a sombra interioriza. A luz é agente ativo e a sombra agente passivo, mas sem passividade, pois espreita, segue, se afeta ou se deixa afetar.
O ator é o coração, os expectadores são as artérias. Só há existência de um pelo funcionamento do outro, ainda que seja priorizado o órgão em detrimento do que o faz funcionar.
O ator é lembrança, a platéia é renovação. O ator traz o presente, a platéia expressa o futuro, pois no primeiro há mensagem, no segundo divulgação.
Divulgar e divagar, mas certo que só toca o que não é vulgar ou vaga perdido...Porque a vida como uma peça é encontro e união e seu roteiro lido terá diversas interpretações para cada um que tocar.
Ser platéia não é massa, nem números...antes ingredientes e olhos.
Ela sai do teatro, mas o teatro não sai dela. As cortinas podem fechar e o assento ficar vazio no fim, mas nada no intimo termina e nunca se está no mesmo lugar. Só há vazio no esquecimento e que cada platéia não seja assim esquecida.

Serdundâncias


Não sei o que sou
Mas ainda assim, sou
Porque não saberia ser outro
Ainda que outros caibam no meu ser

E mesmo sendo, não sou
Nem tudo é o que aparenta ser
Não sou parte de um todo
Mas o todo de uma parte

Também parte de mim o que fui
Fui o que hoje, me levou a ser
O que serei? Não sei
Será o que tiver de ser

E mesmo que termine o que sou
Ainda que nada que é, termine
Que sendo, ainda que mude
Não deixa de ser

O prazer


No corpo que pranto de suor
Soar que explicita o implícito 
No coro quase corado em uma voz
Tez impregnada de insensatez 
Delírio que ruge como o lírio urge
Entre o poder com F
E "me ter" junto
Luxuria do luxo da alma
Perde a calma e simples ama
Cama, carma e carne
No ansiar do cio
De um gozo gozado
Que ri da morte de morrer em um riso