terça-feira, 7 de outubro de 2014

Modernidade à Deriva



Envoltos em um maremoto de informações. As percepções afogadas em ondas, que levam sentimentos e pensamentos para praias distantes. O espírito sufocado em um corpo anestesiado.

Músicas altas abafam os ouvidos e silenciam a voz do mundo. Olhares vidrados em telas imóveis, cegam a sensibilidade no entorno. Uma conectividade que oblitera a capacidade de empatia com as outras pessoas.

Nesse isolamento do mundo intimo, nos angustiamos pelo passado, de hipóteses que transcorreram sem vermos. Desenvolvemos ansiedades de um futuro, repleto de expectativas e urgências. E nos ausentamos do presente, no qual deveríamos estar.

A sensação de tempo se modifica em rápidos fragmentos. Adormecidos em nossas rotinas, somos despertados por bruscas mudanças e constatamos que não observamos o processo que levou a elas. Nenhuma ação parece suficiente, nestas milhares de janelas e mensagens que se abrem, sem mostrar um caminho. E por trás de milhares de seguidores, ainda vive o velho vazio, ignorado e em busca incessante.

Nesta jornada (COM)viver da lugar a (SOBRE)viver. Mesmo as companhias partilham a solidão, Embora  juntos fisicamente, permanecem distanciados pela razão. Embriagados de paisagens, cenários e fantasias, que tentam recriar, o paraíso interior perdido.


O medo de se aventurar em alto mar, vencendo os ventos acelerados de cada dia, mantém a humanidade enraizada em suas ilhas privadas "online". Como náufragos modernos, que lançam seus apelos "engarrafados", esperando serem encontrados.

domingo, 21 de setembro de 2014

O dilema do Equilíbrio



" Lamuriava pela falta de emprego, mas uma vez empregado, queixava do excesso de trabalho
  Lastimava a solidão, embora quando casado, ansiava por estar só
  Reclamava da ausência de provas para fundamentar sua fé, porém quando recebia evidências, descartava sem qualquer avaliação.
  Apontava o destino como responsável pelo azar, ainda que diante da sorte não desse crédito a destinação.
  Relembrava constantemente as perdas, mas enquanto tinha, apenas valorizava o que poderia ganhar.

O caminho do meio não está em reconhecer o que nos falta em cada momento, mas aprender como crescer em cada um deles. O equilibrista primeiro projeta sua alma do outro lado da corda para que depois a mesma retorne para buscar seu corpo."

domingo, 17 de agosto de 2014

Irmã

Nascemos de um mesmo ventre
Ainda assim, permanecemos anônimos um ao outro
Até que uma voz que confiamos e amamos, nos diz: Eis a sua irmã
Nos admiramos com uma estranheza 
E daquele ponto em diante aprenderíamos a arte de dividir o espaço, o tempo e a própria vida
Na tentativa de compreensão dos limites e das diferenças, conflitaríamos até que encontrássemos o caminho do meio
Diante de repreensões paternais e nas primeiras dificuldades gerais, nos uniríamos em defesa e proteção recíproca
Frente a inevitáveis comparações, surgiria a definição do que gostaríamos de ser e encontraríamos mutuamente, os traços a serem desenvolvidos e modificados
Gradualmente aquela incomum sensação inicial, esvairia, dando lugar a um amor puro e desprendido, um natural reencontro
Abandonaríamos as rivalidades da formação para a cumplicidade de termos nos descoberto
Lado a lado, passaríamos juntos pelas mudanças e transformações que nos convidariam a partir muitas vezes, nos ensinando a independência, embora já dependentes do sentimento que nos ligava...
Indo e voltando em movimento perpétuo como as ondas, sempre nos encontraríamos!
Já adultos, com a marca de tantas experiencias expressa em nossas faces, ainda vemos aquelas crianças que brincavam, brigavam, riam, choravam...
Lembranças que se reúnem em torno dos nossos pais, que mais do que a vida, nos deram um laço de sangue.
Uma amizade profunda e sincera de simplesmente, sermos irmãos!

domingo, 27 de julho de 2014

Amizades


                                      

Em algum lugar, sozinhos ou acompanhados, uma voz, ainda estranha, despretensiosamente inicia uma conversa. Assuntos desconhecidos, porém instigantes, despertam uma estranha familiaridade. O tempo parece mais curto, horas se passaram e continuam ali, juntos.

Gradualmente, um momento se torna uma constante, que entra na sua vida, sem se dar conta. Tudo parece leve, porque tudo passa a ser dividido: sorrisos, lágrimas, criticas, elogios,...

A amizade, mais do que uma confidente, é uma mágica afinidade que revelando o outro, nos leva a uma auto-descoberta. Uma impressão digital registrada na alma.

Mesmo quando as armadilhas da estrada, fazem os caminhos divergir e os diálogos se silenciam, persiste aquela presença, que nos acompanha. Uma lembrança companheira que nos reaviva apontamentos, consolações e direções.Um eco que reverbera em cada passo.

Repentinamente, distraídos, o destino promove o nosso reencontro. Por mais diferentes, que nos encontremos, tudo parece igual. Rimos novamente das crianças que fomos e nos emocionamos com
os adultos que nos tornamos. Abrimos os braços para a esperança em um abraço e num tratado silencioso, assumimos a nossa responsabilidade de sermos amigos.

Quer minha amizade? Puxe uma cadeira e sente para conversarmos.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Páginas em Branco




Comumente, escuto dizerem: - " A vida não tem nenhum sentido". Após alguma reflexão, constatei que o sentido da vida, talvez esteja justamente na falta de sentido. Complicado? 

Ponderemos um livro cujas páginas estão em branco. Sem sermos capazes de lê-lo, escrevemos o que desejamos, passando de leitor a autor. A vida ao se apresentar com lacunas, nos permite liberdade de criação e interpretação, sentindo e pensando de acordo com o universo íntimo que trazemos. Nos tirando do papel de telespectador passivo para ator atuante do roteiro que escolhemos.

Tal sentença também é proferida como uma frustração frente o inevitável, uma negação diante das dores e da morte. Neste caso, o imprevisível, nos leva a contornar a nossa previsibilidade nas ações. Através do que não podemos evitar, conduzimos nossas escolhas, nos adaptando e modificando. Exercitando a flexibilidade, a capacidade do desapego e da necessidade de controlar.

Assim como a pedra bruta diante do buril, que remove os excessos e revela a escultura. Encontramos na imprevisibilidade, não uma fatalidade, mas um fator que nos leva a ressignificar a vida.

Há quem a partir de uma mancha em um papel, pare de escrever. Há quem tome partido desta mancha no contexto que escreve. Há ainda quem simplesmente cubra a mancha e  ignorando, prossiga o que havia começado anteriormente.

Um papel em branco não é uma folha vazia, mas um caminho de infinitas possibilidades e descobertas. Conforme escrevemos, nos encontramos. O único vazio que podemos ter é a forma como olhamos para algum lugar.

sábado, 19 de julho de 2014

Ainda que...


                                              "Ainda que se perca, não abandone a busca
                                              Ainda que não viva para amar, ame para viver"

terça-feira, 8 de julho de 2014

Vícios Emocionais



É comum ouvirmos falar dos vícios físicos...E naturalmente os compreendemos, por saber que a dependência química gerada pelos mesmos, passa a ser requerida pelo cérebro como uma necessidade do corpo. No entanto, dificilmente escutamos falar, que as emoções também podem se tornar vícios. A repetição gera uma condição. E assim como podemos ingerir substancias nocivas, nosso cérebro é capaz de produzi-las sob o efeito de determinada intenção. Passamos então a querer repetir determinados atos ou emoções para produzir substâncias que após algum tempo, se tornarão uma necessidade.
Temos a tendência de separar nossas emoções de nosso condicionamento físico, como se estas fossem um fenômeno a parte. Freud ja havia percebido que estresse ou um quadro depressivo prolongado era capaz de adoecer o corpo. Os vícios costumam suprir ou disfarçar a nossa própria fragilidade...e por isso é difícil reconhecê-los ou nos libertarmos dos mesmos. A nossa dificuldade de escutar o problema dos outros está exatamente na dificuldade de vermos espelhado a nossa própria fraqueza.
Reeducar o cérebro é um processo difícil. A abstinência de uma necessidade gera a ansiedade, uma pressa por tampar um vazio que antes era ocupado ou saciado por uma opção. Esta ansiedade comumente produz irritabilidade e agitação, é uma forma que encontramos de indenização corporal.
Auto-Confiança, aceitação, força de vontade, compreensão e conhecimento, costumam ser instrumentos eficientes na libertação destas correntes. Jesus, um grande psicólogo, já havia dito: "Conheça a verdade e ela vos libertará". Conhecer a si mesmo, ter a percepção correta sobre os próprios atos, ser capaz de reconhecer as dificuldades, fragilidades e estar disposto a uma nova experiência e atitude, pode ser um retorno as rédeas da própria vida. Ao invés de sermos controlados pelas nossas necessidades físicas, perdendo a espontaneidade das ações que viraram uma rotina, passamos a agir com segurança e equilíbrio sobre nossos passos....
O cérebro é o cocheiro da carruagem corpo, seguros e aliados a ele, a estrada parecerá ter menos obstáculos e sinuosidade.

O abraço



"Abraços são laços rentes
Que quentes, aquecem o destino
Aquietam o tino na comunhão

Abraços são filhos da saudade
Os trilhos da felicidade
O retumbar de duas notas
Que valsejam a mesma emoção

Abraços são esperanças
Crianças em ciranda
Cujos risos se fazem guizos
Ecoando em um momento
O pensamento da intensidade

Abraços são as palavras do amor,
Ardor que desterra o calor
Que a alma encerra na calma

Abraços não tem idade, raça ou sexo
È o simples nexo da graça em habilidade
Eterna, terna e etérea de um suspiro

Abraços são os brindes dos corpos
Que emanam o vinho do espirito
Tilintam o sabor da vida
Em goles de dividida da diversidade

Abraços são os traços do universo
Delineados por um verso de silêncio
Imerso nas reticencias do encontro
Que abrem os braços do amanhã"

As flores da alma



Sede vós como as flores a exalar o perfume de vossa existência
Desabrochar a consciencia, voltando o coração para a luz de cada oportunidade
E quando as pétalas, por ventura cairem, que sejam elas, o caminho que vossos pés pisem
Não vos amargureis de ver a rosácea despida, pois na natureza ciclos findam para que outros recomecem
Uma flor nunca será a mesma, mas ainda assim, sempre será bela, quando em posse de si mesma

A origem dos sonhos



Muitas vezes ouvimos a exclamação: "Tive um sonho tão louco esta noite!". Estranhamente, eles sempre pareceram ter um sentido diferente para mim. Sempre guardaram alguma nitidez e mesmo quando abstratos pareciam revelar algum sentido. Costumava brincar, que sonhava com legenda.

O pensamento é uma energia sem forma e para ser compreendido utiliza roupagens que temporariamente o corporificam: assim nascem as palavras, a arte, os sonhos...expressões que antes de significarem, são formadas por associações de experiências que cada um traz dentro de si.

Assim como o mar, trazemos no pensamento uma superfície aparente, que se revela em imagens consistentes e nítidas traduzidas em sentidos diretos (consciência) e uma intimidade profunda, que se conserva obscura (inconsciente), que guarda a parte incompreendida de nossa natureza.

Mas o nosso inconsciente também utiliza uma linguagem, que embora seja codificada, é revelada, muitas vezes, pelos sentimentos, que se manifestam em sensações, estranhamentos, atrações e repulsas, nos dando referências para aquilo que não compreendemos de imediato.

E é neste instante que emergem os sonhos. Seja como uma expansão direta da consciência, na qual nos deparamos com pessoas, lugares e situações reais,ou como, uma desfragmentação do inconsciente que transforma nossas experiências em símbolos, uma forma da nossa mente organizar o momento pelo qual passamos.

"Sonhei com uma cobra em minha cama, sendo que tudo estava cercado por uma água turva." Pode parecer uma imagem sem sentido, se for lida de forma literal. No entanto, experimentemos abster dos julgamentos e substituir palavras por outros sentidos similares:

Cobra - Ameaça, Perigo, Veneno, ...
Cama - Intimidade, interior, privacidade,...
Água - Vida, Emoção (lágrima), ...
Turvo - Opaco, oculto,...

Junte novamente as palavras: "Sonhei que algo ameaça (cobra) a minha intimidade (cama), mas não consigo definir (turvo) emocionalmente (água). Agora, há um sentido que caberá ser analisado com o momento pelo qual se vive.

Não atribuam a este exercício, qualquer definição profética ou mística, mas como um instrumento de auto-conhecimento. Não descartemos as peças do nosso quebra-cabeça interior. Uma peça sozinha pode não ter um sentido aparente, mas as encaixe com outras e uma imagem importante pode ser revelada.

A loucura é apenas a incompreensão de uma realidade que não alcançamos, aprisionados ao momento e as convenções. Se a origem dos sonhos está diretamente ligada ao pensamento e nosso pensamento define o mundo o qual vivemos, também somos e vivemos o que sonhamos!